R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

They Sell Souls, You Know...

por João Seixas

conto publicado em 09.03.2002

republicado em 16.04.2004

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Como podia alguém parar aquela máquina?
Muito menos um vagabundo como eu. Pelo menos depois de me desconstruírem a vida tal como me desconstruíram o corpo. O meu sogro, o meu adorável sogro Mr. K. nunca permitiria que eu pudesse parar a máquina. Porque ele sabia que eu podia parar a máquina. Pelo menos Carys podia parar a máquina.
Carys... se ao menos ela aparecesse por aqui...
— Danny! Hei, Danny!
Voltei-me para onde me chamavam. Não era Carys. Eu sabia-o antes de me voltar. Não era a voz de Carys, mas quando desejámos muito uma coisa...
Era Gutty que se arrastava para mim. Eu nunca consegui perceber como ele sabia que eu estava ali. Mas, enfim, eu estava sempre ali.
Gutty era cego. Tinham-lhe levado os olhos. Os dois. Mas, apesar disso, era um felizardo que eu invejava: tinham-lhe deixado ficar um dos braços!
Cacarejei alguns sons imperceptíveis em resposta e, guiado por eles, veio pôr-se ao meu lado.
— Ei, Danny... Sabes o que se diz por aí? Vão acabar com isto. Vão acabar com esta merda toda!
'Sente-lhe o cheiro, Gutty! Ainda está fresca!' Era um optimista este rapaz.
— Não Danny, a sério! Desta vez é de vez! Já corre palavra entre os rapazes. Andam a matar-nos! Ouviste, Danny? A matar-nos! Ah... Ah... Vão acabar com isto tudo...
E afastou-se, gritando a sua Boa Nova, dirigindo-se para a próxima esquina, a de Martin.
Vi-o a afastar-se. A história não era nova. De tempos em tempos, quando as coisas ficavam piores, corriam boatos de brigadas de extermínio que acabavam connosco. Para nós era como anunciar a segunda vinda de Cristo ou uma noitada com a Meretriz da Babilónia (pelo menos para quem ainda podia).
Mas talvez desta vez fosse verdade... Talvez...
Havia umas noites atrás, eu próprio tinha visto um grupo 'deles' em volta do velho Abraham Jacob, as suas batas brancas a flutuarem como fantasmas entre a névoa do rio. Não conseguia ver muito bem e a neblina transformava as luzes brancas num borrão indistinto, mas estavam a usar uma técnica que eu não conhecia. E o velho Abraham não tinha nada que valesse a pena levar... a não ser que a cirrose estivesse a ser objecto de procura...
A verdade é que ninguém voltou a ver o velho.
Talvez desta vez fosse verdade... Há tanto tempo que se falava disso... Talvez desta vez se tornasse realmente incomportável, mesmo a nível da economia paralela, manter tantos pedintes, tantos vagabundos. Isso podia explicar que finalmente tivessem decidido começar...
Talvez por isso Carys não vinha... Talvez fosse melhor assim...
Engolir as lágrimas e esperar por melhores dias. Olhei para o céu. Estava obscenamente azul, de um azul magnífico, um azul de dias felizes...
Por baixo dele centenas de pessoas calcorreavam as ruas, alimentando a máquina que fazia o mundo girar no seu périplo infindável. Corri os olhos por elas, constatando que realmente não lhes sentiria a falta. Não de todas, pelo menos.
Conseguiam manter um aspecto invejável durante aqueles estranhos dias. A moda era ousada porque a matéria-prima era abundante. Alguns deles davam-se ao luxo de mandar implantar dois braços direitos apesar dos problemas motores e de coordenação que isso trazia a nível do córtex cerebral; outros implantavam um braço de cada cor como forma de afirmação anti-xenófoba.
No fundo, era divertido ver o desfile de todas aquelas criaturas que nos ignoravam. Era como estar invisível no quarto de um casal em noite de núpcias. Era uma forma tão íntima de impessoalidade.
Mas ali estava alguém que eu conhecia. Exprimi-me mal. Alguém de quem eu conheço uma parte: aquele braço forte e bem tratado. Vêem aquele braço esguio — perdoem-me a imodéstia: atlético? Se repararem bem, verão que leva agarrado a ele uma mão. Nessa mão, no anelar, encontra-se uma aliança que está tão apertada que ninguém será capaz de a tirar sem cortar o dedo fora. Pois bem, se eu for merecedor do vosso crédito, deverão ter como certo que no interior dessa aliança se encontram gravadas as seguintes palavras: 'Danny e Carys — Amor Eterno'.
É desnecessário dizer que aquele é o meu braço. Um dos meus braços. Um dos braços que me levaram em troca da alma. O filho da puta a passear com o meu braço...
Sem me conter agarrei a correia com os dentes. Com a atrapalhação deixei que o cabo deslizasse pelas minhas gengivas nuas fazendo-me guinchar de forma estridente, como se adivinhasse tudo o que ia acontecer nos minutos seguintes.
O melhor que pude, comecei a contrair o corpo, puxando o cabo, puxando o carro, sentindo o meu próprio sangue encher-me mais uma vez a boca.
O homem apenas se apercebeu de que eu me dirigia para ele quando já me encontrava à sua beira e, antes que pudesse fazer fosse o que fosse, já eu me impulsionara contra ele, abocanhando a mão com a minha aliança, chorando e guinchando que aquele braço era meu e que eu o queria de volta.
O homem começou a gritar sentindo os meus poucos dentes enterrarem-se na sua (minha) carne. Outros gritos se lhe juntaram e eu mordia o mais fortemente que podia, procurando pelo menos arrancar-lhe aquele dedo. O meu dedo.
Ele apercebeu-se da minha intenção, ou deve ter-se apercebido, pois os seus olhos acenderam-se com um brilho verdadeiramente irracional e ele começou a bater-me com a outra mão na cabeça e a pontapear-me no estômago, até que eu me dobrei um pouco e ele me pôde empurrar com o pé.
Imediatamente o meu carrinho começou a rolar descontrolado para trás, aproveitando a inclinação da rua para ganhar velocidade. Eu continuava a guinchar como um animal ferido. E esses guinchos eram o meu grito de raiva, o grito que a minha boca sem língua podia formar... sem a língua que podia estar agora numa boca como a daquele sacana que olhava pasmado para a sua mão ensanguentada.
Não podia fazer grande coisa para travar o ímpeto do meu carrinho, a não ser virar-me de lado, fazendo-o tombar. Não é coisa muito difícil para quem tem o centro de gravidade tão incerto como o meu.
O carro voltou-se de imediato fazendo brotar um jardim de faíscas azuladas da pedra quente. O meu corpo mutilado rodou violentamente durante alguns metros, como um saco com o conteúdo compactado. Por fim detive-me, chorando de raiva e de humilhação, chorando de impotência, vendo-me reduzido a rastejar como um insecto se quisesse voltar para o carrinho sem ajuda. E era evidente que ninguém me ia ajudar.
O mais determinadamente que podia, comecei a arrastar-me de volta para o carro. Não sei se alguma vez estiveram nesta situação, mas quando virem alguém a arrastar-se como eu, por favor, ajudem-no. Deitado de barriga no chão, a avançar com contracções do corpo, todas as coisas nos parecem muito maiores e muito mais distantes. Como se fossemos vermes num mundo de deuses indiferentes.
As pessoas continuavam a caminhar à minha volta, como se não me vissem, os seus passos ecoando como trovões aos meus ouvidos. Temia, irracionalmente, ser pisado por um daqueles pés enormes que me reduzisse a uma polpa acinzentada. Comecei a chorar e, nunca tanto como nessa altura, amaldiçoei a hora em que troquei a minha alma pela vida deles.
Metro a metro, arrastei-me com determinação. Até que o vi. Algo que eu nunca vira daquela perspectiva. Um caracol. Um caracol torturado pelo calor que se arrastava para a sarjeta húmida, deixando atrás de si um ténue rasto viscoso que o sol inclemente imediatamente apagava. Um caracol que — e é tão ridículo ter pensado nisto — um caracol que avançava mais depressa do que eu, alheio à ameaça que representavam todas aquelas dezenas de pés em movimento.
Um caracol que se abrigava na minha proximidade, como se soubesse que aqueles gigantes não me pisariam, apesar do terror que eu sentia de vir a ser pisado.
Acho que nunca na minha existência desci tão baixo. Nunca ao ponto de me impulsionar por sobre o pequeno molusco, derramando a minha sombra aterradora sobre ele. Para depois abocanhar com os lábios, abrindo a boca, deixando-o escorregar para sob a cremalheira trituradora dos meus dentes.
Senti um nojo indescritível quando os meus dentes destroçaram a frágil carapaça e o seu corpo mole se desfez na minha boca sem língua que não o podia cuspir.
E, nessa altura, alguém me começou a pontapear violentamente na ilharga com sapatos de ponta afiada. Comecei a gemer, guinchando, enquanto o espancamento continuava e eu ouvia uma voz de mulher a gritar:
— Homem nojento... Imundo... Homem nojento... — E eu apercebi-me de que quem gritava era uma mulher jovem que chorava copiosamente enquanto me batia, gritando:
— Homem nojento... — Mas não me batia por nojo, por ódio ou por desprezo. E isso foi o que me doeu mais: batia-me porque eu a desiludira, porque o seu vazio era tão devorador como o meu e ela não tinha o meu cinismo para se proteger. E chorava, desesperada: — Homem nojento... Como pôde dizer que o meu Danny estava vivo... que o meu Danny estava aqui...
E cada palavra dela cortava-me como um punhal afiado e eu chorava, querendo gritar, querendo morrer. Não sentia as suas pancadas. Apenas as suas palavras e o peso das sobras de um corpo demasiado pequeno para conter a dor que me torturava a alma.
Deixei-me estar caído, desejando que ela conseguisse apagar a sua dor de alguma forma porque, depois daquele dia, ninguém conseguiria apagar a minha.
Um homem que eu não vi arrastou-a gentilmente para uma limousine, os seus soluços a afastarem-se lentamente, a sua recordação a morder-me a alma como dentes afiados.
Uma mão forte prendeu-me os cabelos levantando-me a cabeça do chão. Através de uma turva cortina de lágrimas vi o rosto de Mr. K. crescer para o meu. A sua voz sentenciou, sibilante:
— Uma vergonha! Ao menos tenha a decência de morrer silenciosamente!
Largou-me os cabelos gordurosos deixando que a minha cabeça batesse violentamente no chão de pedra. Ouvi os seus passos afastarem-se decididos, deixando para trás o farrapo em que o brilhante Danny Silverberg se tinha transformado. O farrapo sujo, desdentado e coberto de sangue que esperava que Carys reconhecesse e levasse para casa. 'Oh, Deus...'
A partir daquele dia já não valia a pena esperar por Carys. Já não valia a pena continuar a imaginar cenários idílicos em que seria recolhido e todos os meus órgãos me seriam devolvidos. Já nada havia a esperar.
E que sentido tem a vida quando não se espera algo...?
Deixei-me estar deitado como um verme, até me sentir capaz de me arrastar para o carrinho. Depois arrastei-me para o meu buraco sob a ponte metálica, esperando a visita dos homens de branco.
Sabia que nessa noite haviam de vir por mim. Mas não vinham para me matar. Oh, não!
Eu sabia que eles não teriam o trabalho de matar quem quer que fosse. Eu trabalhei no Laboratório! E, para matar, é preciso ser Humano!
Mas eles viriam. Oh, sim, eles viriam. Mas porque tinham descoberto a maneira de arrancar a um homem tudo o que ele possui.
É que eles também vendem almas!

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