R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

O Telepata Experiente no Reino do Impensável

por Jorge Candeias

conto publicado em 03.09.2001

republicado em 03.09.2003

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O Telepata 243 não se preocupou por aí além. Tinha experiência. E acidentes eram raros. Precisavam de demasiada absorção ou de violência em demasia. E aquele planeta era calmo, comparado com outros. E o Telepata 243 havia visitado quatro. Telepaticamente.
A parte de si que se mantinha ligada à máquina mostrava movimento lá em baixo. O Telepata 243 restabeleceu uma ligação total.
—oOo—
O indonésio estava quase feliz. Debruçava-se sobre a cabina da camioneta esmagado entre um subindonésio e o Tipo. O subindonésio estragava tudo. Era outro quase insignificante. Que falava com sotaque. Vinha duma ilha qualquer a leste. Uma ilha cheia de macacos. Só com macacos. Como esta. Repelente. Mas estar ali, escarranchado de encontro ao Tipo, compensava qualquer desconforto. Sentia os bíceps do Tipo latejar de encontro ao seu ombro. Sentia as coxas do Tipo em encontrões arrítmicos às suas ancas. Nas curvas encostava-se mais. Mas continha-se. Porque se achava acusado por Alá. Sem razão, no entanto. Nunca tinha feito nada. Nunca tinha tentado alguma coisa. E não tinha culpa dos solavancos.
O indonésio ia mostrar a Alá que não havia motivo para acusá-lo. O indonésio amava Alá quase tanto como amava o general Amianto. E mais que o Tipo. Oh, muito mais! O indonésio ia mostrar que era assim. E era já.
A camioneta tinha parado e já os outros saltavam da caixa, lá atrás. Os outros como ele. Os que vestiam as T-shirts pretas. Gritava-se. O indonésio também gritou. Sacou da sua automática e lançou uma rajada. Nem viu para onde. E não interessava, porque os outros também tinham disparado. Os outros de preto. Porque os insignificantes fugiam, escondiam-se, gritavam.
O indonésio recordou-se das listas e pôs-se a olhar para os insignificantes. Os malditos eram todos iguais. Deviam fazer de propósito para não serem identificados. Mas não se podia cair nessa esparrela, por isso o indonésio olhava para eles com atenção. Viu um rosto conhecido. Disparou. Duas balas entraram na carne, mas foi só nas pernas. Disparou de novo. Agora sim. Tórax, tórax, abdómen, virilhas. Está feito. O indonésio sorria ao ver o outro a estrebuchar. Aproximou-se. Virou-o com o pé. Olhou-lhe a cara e resmungou:
"Merda. Enganei-me."
Conhecia aquele, sim. Mas não das listas. Era o tipo que lhe vendia os legumes quando se fartava da comida de caserna.
"Que importa? É um deles na mesma."
Outro dos outros passou por si a correr. Levava uma catana e brandia-a em todas as direcções. Mas não lhe acertou. Porque no pânico em que vinha nem o viu. Corria perseguido por dez ou quinze T-shirts pretas. Que riam, gritavam, disparavam tiros que roçavam os pés do outro. Divertiam-se. O indonésio fez pontaria. Disparou. Atingiu o outro nas costas. A meio das costas. Um pouco ao lado da coluna vertebral. O outro caiu. Estatelou-se. Arqueou o dorso e ficou imóvel.
O indonésio correu a apanhar a catana. Viu o outro abrir os olhos. Olhou-o, enquanto lhe cortava a barriga nua. Olhou-o bem nos olhos até que eles se apagassem. Depois debruçou-se. Vagamente incomodado pelo cheiro que saía da barriga aberta. Debruçou-se sobre os olhos. Pegou na faca e retirou com cuidado um dos olhos do outro. Olhou-o com curiosidade, na mão. Cheirou-o. Fez pressão com os dedos e sentiu o olho a ceder um pouco. Pôs o olho na boca e fechou-a. Sabia a sangue.
O indonésio cuspiu o olho do outro e correu para a casa de onde ele saíra. Vinha de lá um grande alarido. Encontrou as T-shirts pretas amontoadas num quarto. De facas na mão. No chão, duas fêmeas dos outros gritavam altíssimo. Uma sangrava do pé. Onde não tinha três dedos. O Tipo estava lá também. Com uma faca na garganta da outra fêmea, sacudia as ancas ritmadamente sobre ela. Sangue empapava-lhe as pernas. Sangue da fêmea. Que devia ter uns dez anos. E o Tipo era grande. A fêmea sem dedos berrava.
O indonésio sentiu uma ponta de ciúme. Com um berro e dois encontrões, pôs-se à frente dos outros. Ergueu a catana sobre a fêmea com falta de dedos no pé. A que não se calava. Deixou a catana cair sobre ela. Sem fazer força. A catana estava um pouco romba, porque só se enterrou até ao osso. Foi num braço, nada de grave. A fêmea berrava mais alto e parecia que lhe falava naquela língua esquisita dos outros. Desta vez tinha de fazer força. Fez. A perna separou-se do corpo como se aquilo fosse uma boneca. Só que as bonecas não espirram sangue.
Nessa altura os outros homens de T-shirts pretas também quiseram entrar no divertimento, e lançaram as suas facas sobre a presa. O indonésio olhava para o Tipo. O Tipo estava quase a chegar lá. Os seus olhos encontraram-se. O indonésio fez-lhe um sinal. O Tipo acenou que sim, e afastou a faca do pescoço da fêmea nova. Os seus movimentos tornaram-se mais rápidos. O indonésio ergueu a catana. O Tipo obrigou a fêmea a baixar-se. Gritou "Agora!" E o indonésio baixou a catana com força. A cabeça da fêmea nova saltou e rolou pelo chão enquanto o Tipo se vinha. E se vinha. E se vinha.
O indonésio sentiu o seu próprio sexo em turgescência. Pegou na cabeça pelos cabelos e lambeu-lhe os olhos. Que tinham ficado bem abertos. E em que sangue se misturava com lágrimas e com terra vinda do chão...
—oOo—
O Telepata 243 sentiu um tremendo choque eléctrico. Caiu num vácuo escuro dentro de si. Ficou nele algum tempo.
O Telepata 243 voltou ao mundo real, sentindo a presença de moléculas incomuns no seu ambiente. Quer interno, quer externo. Principalmente nos Poros da Vida. Controladores berravam-lhe no cérebro, descontrolados. O Telepata 243 olhou em torno de si. Aos seus pés, ou o equivalente a pés na sua estrutura corporal, uma larga poça púrpura estendia-se num círculo rugoso. Fluidos vitais. Fluidos vitais de telepatas. O Telepata 243 olhou com mais atenção. No chão, dois telepatas encontravam-se caídos. Já não vomitavam. Os seus corpos tornavam-se lentamente negros. Os fios dos seus interfaces pendiam cabisbaixos, como que sem vida. O telepata reconheceu o sabor que sentia nos Poros. O telepata expandiu-se, sem controlo, quando reconheceu o horror.
Depois vomitou púrpura e abateu-se aos pés de si mesmo. Quando os limpadores chegaram, já estava bem negro.

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O Telepata Experiente no Reino do Impensável

Jorge Candeias escreveu:

 

Sally

Edições Colibri

2002

(leia a crítica de Octávio Aragão)

 

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e escreveu a introdução e os contos:

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