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O Telepata Experiente no Reino do Impensável

por Jorge Candeias

conto publicado em 03.09.2001

republicado em 03.09.2003

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O Telepata 243 percorreu o trajecto que o separava da Sala dos Telepatas num deslizar rápido. Estava contente. Bem alimentado. Rescendia em odores de felicidade.
O Telepata 243 era um telepata de carreira longa e bem sucedida. Tinha 4 filhotes de outras tantas telepatas que haviam compartilhado consigo a telepatia. O filhote mais velho era já telepata, também. O Telepata 243 havia dado à civilização o conhecimento detalhado de centenas de individualidades de quatro mundos diferentes. Quatro mundos, nem mais nem menos! O Telepata 243 era muito considerado entre o seu povo.
Porque o povo do Telepata 243 tinha um gosto especial em distracções telepáticas. E tinha em alta conta aqueles que lhe forneciam essas distracções.
O Telepata 243 entrou na Sala dos Telepatas num deslizar confiante. Estava contente. Bem alimentado. Preparado para mais uma sessão telepática de absorção de conhecimento.
O Telepata 243 ligou o aparelho. Luzes piscaram fugazmente no espaço à sua frente. O Telepata 243 ditou com a mente algo que poderia traduzir-se por uma data e um número. E ainda "Telepata 243 em preparação para o contacto AT-286-NT. Sujeito: Terra." Ou o equivalente a isto na língua do telepata. Na língua psíquica do telepata.
O Telepata 243 olhou em volta. Procurava absorver uma golfada de realidade antes de ligar-se à interface telepática. Massas bolbosas vomitavam suavemente por todo o lado. Telepatas. Outros telepatas. Cada um com o seu contacto, cada um ligado ao seu aparelho, cada um flutuando no seu lugar. Todos silenciosos e imóveis. Se não se contar com o som do seu suave vomitar, ou com um estremecimento aqui e ali.
O Telepata 243 suspirou. Ou o equivalente a suspirar na sua fisiologia emocional. Aconchegou-se na sua ausência privada e começou a premir botões. Ou o equivalente a fazer isso. Com a mente. Estabeleceu contacto. Algo em si desapareceu. E o seu corpo começou a vomitar. Suavemente.
—oOo—
O indonésio saiu do seu lugar. A T-shirt preta reflectia ripas de sol que entravam pela janela. À sua volta, planeava-se o próximo incêndio. Não ligou. Iria para onde o general Amianto o mandasse. Faria o que o general Amianto quisesse que ele fizesse. O general estava de pé, ao telefone. Falava baixo, num tom de voz respeitoso. Devia ser um chefe, do outro lado. Mas o indonésio estava-se nas tintas. O que o preocupava era aquela pulga que o mordia por baixo da T-shirt preta. Aquela pulga que o incomodava e que o indonésio procurava matar. Mas não era capaz de encontrá-la.
—oOo—
O Telepata 243 suspendeu a ligação. Ditou ao aparelho o equivalente a "Sujeito indiferenciado. Mentalidade de bando. Não parece afectado por ambiente exterior de expectativa. Pulga: armazenar referência para posterior pesquisa. Provavelmente pequeno animal parasita". O Telepata 243 sentiu-se contente com aquela dedução. Outro telepata menos experiente não a teria feito. Mas ele, o 243, tinha pesquisado quatro mundos diferentes... por isso agora vomitava azul-claro.
Se alguém o tivesse visto naquele momento, repararia por certo na cor. Ou talvez nem fosse necessário. Porque o Telepata 243 soltava moléculas azuis-claras que partiam em todas as direcções. E os detectores estavam atentos. E os telepatas controladores também. Os telepatas controladores sabiam que o 243 estava bem.
Os telepatas controladores tinham uma boa vida. Sossegada. Também, já eram bem velhos. Eram telepatas que haviam visitado mais de cinco mundos, todos eles. Agora já não visitavam outros mundos. Visitavam apenas as mentes daqueles que visitavam os mundos. Podiam saltar duma para a seguinte à sua vontade, absorvendo os mundos através de um filtro. Do melhor filtro possível.
O Telepata 243 estava quase lá. Faltavam-lhe poucas dezenas de sessões neste mundo antes de seguir para o próximo. E depois desse seria a sua vez de visitar todos os mundos que quisesse através de um filtro. Do melhor filtro possível.
O Telepata 243 sorriu. Ou o equivalente a um sorriso na sua fisiologia emocional. De seguida reatou a ligação.
—oOo—
O indonésio estava de pé, à porta. Coçava-se. Com a outra mão, afagava a pistola-metralhadora que lhe fora distribuída para esse dia. Preferiria afagar outra coisa. Percorreu com os olhos os bíceps do Tipo. O indonésio andava fascinado com o Tipo. O Tipo era dos deles. Dos outros. Dos insignificantes magros e de grandes cabeleiras. Que falavam uma língua esquisita. Que não se percebia. Mas o Tipo falava bahasa indonésio quase tão bem como o indonésio e era grande. Muito grande. Com grandes bíceps que o indonésio sem querer queria afagar. Por isso afagava a pistola. Talvez por isso se coçasse.
O general pousou o telefone. O indonésio fez-se soldado e endireitou as espaldas. O general resmungou "Não, idiotas! Vocês hoje são dos outros, não se põem em sentido à minha frente!" O indonésio sentiu-se humilhado. Mas era bom ser humilhado pelo general Amianto. Ele faria o que o general Amianto quisesse. Todos eles o fariam. Talvez o Tipo não, no entanto. Ele era mesmo um dos outros. Não se podia confiar nos outros. Nem mesmo no Tipo.
O general distribuiu as listas do dia. Pelas mãos do indonésio desfilaram rostos e nomes. Um monte de outros insignificantes na lista principal. As mulheres e familiares chegados desses outros nas listas de identificação. Absorveu referências na memória, depois devolveu as listas ao general. Não podiam andar com elas pela rua. Algum metediço podia reparar.
—oOo—
O Telepata 243 desligou-se só em parte. Reparou que vomitava anil, o que era mau sinal. Tensão. Algo retesava as suas glândulas. Ditou "Tensão. Relacionamento intraespecífico confuso. Conflituoso. Reflexos de caça". O telepata absorveu um neuro-repressor pelos Poros da Vida. Mas não se preocupou muito. Já havia encontrado situações daquelas antes. Situações em que predadores partiam em busca de presas. E também situações em que presas perdiam as suas vidas para predadores.

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