R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

O Caso Subuel Mantil

por Jorge Candeias

conto publicado em 09.08.2002

republicado em 04.08.2003

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O director desligou o intercomunicador com um gesto displicente, suspirou, e voltou-se para a secretária, que ronronava, seminua e esparramada sobre o sofá de couro. Resmungou um "chatos!", levantou-se e afivelou o seu melhor sorriso profissional. Já o sorriso era genuíno quando murmurou, com uma voz que pretendia afrodisíaca:
- Onde é que nós íamos, fofa?
-oOo-
Interrompemos esta notícia para lhe dar conta dos últimos desenvolvimentos na situação que se desenrola no primeiro andar da nossa sede, em Lisboa (panorâmica da sede). O indivíduo que se barricou numa das casas de banho do átrio já foi identificado pelos técnicos do Sindicato dos Magos e Afins do Sul e Ilhas. Trata-se de Subuel Mantil, técnico de magia transformativa de 2ª classe, especializado em demolições e terraplanagens (fotografia de um homem careca, com uma barba rala e um olho de cada cor). Desconhecem-se ainda os motivos que levaram Mantil a fechar-se nas nossas instalações. O que se sabe é que o mago tem contrato com a construtora Pirilimpimpim, S.A., empresa controlada pela holding Pan-Sininho (esquema das ramificações da holding), à qual também pertence a estação de etervisão privada Sociedade Independente de Etervisão, além de vários outros órgãos de comunicação social. O indivíduo tinha prevista para a semana que vem a sua partida para Lisboanova (panorâmica de Lisboanova, Marte), onde iria ficar encarregado dos trabalhos preparatórios para a construção de instalações próprias da TEP-Marte, obra concessionada à Pirilimpimpim (panorâmica anterior, com a representação virtual de um majestoso edifício sobreposta a um terreno baldio no centro da cidade).
A Polícia Judiciária está neste momento a averiguar se a acção de Mantil é isolada ou se, pelo contrário, se trata de parte de um plano da SIE concebido com o fito de...
-oOo-
José Afonso Tiago não estava nada bem disposto. Todos os esforços para mandar chamar Rirangel tinham esbarrado na casmurrice da secretária que teimava que o empresário estava demasiado ocupado para vir falar com um potencial terrorista. Demais sabia ele o tipo de trabalho que dava ser director-geral duma empresa como a TEP. Ha! E agora tinha de dizer ao maluco do Mantil que o outro não vinha... e sem ter a mais pequena ideia do que o barricado poderia fazer: a ideia desastrada dos Olhos de Cheshire que os palermas da PSP tinham tido só tivera como consequência o reforço dos feitiços anti-intrusivos. A sua testa latejante não o deixava esquecer-se desse facto.
- Olhe, o dr. Rirangel diz que está numa reunião muito importante - mentiu Tiago, enquanto gesticulava furiosamente todos os feitiços manuais de protecção de que se conseguiu lembrar - e não pode vir. Pede que o desculpe, mas diga o que quer dele, que ele mais tarde falará consigo.
Tiago estava surpreendido por ter conseguido debitar o discurso todo, e começava a ganhar alguma esperança de que o problema se resolvesse por si próprio quando
- Ai meu Deuuuus!...
e o olho na ponta da sonda etérea se transformou num projector que colocou, na parede do outro lado do corredor, a mesma que tinha já levado com uma funcionária, um segurança e uma sanita, uma panorâmica de Lisboanova, Marte, obtida aparentemente em tempo real a partir da vertente do Monte de Nova Sintra, uma pequena colina que dominava a cidade e que fazia parte do bordo de uma velha cratera, já muito erodida pelo tempo.
- Eu faço uma desgraça! Eu faço uma desgraça! - continuava a voz a berrar de dentro da casa de banho - Vocês não me vão mandar para Marte! Ou o Rirangel vem cá abaixo , anular-me o contrato, ou Lisboanova desaparece do mapa!
- Ai meu Deuuuus!...
-oOo-
- OK, que temos por aí, Tiago? Que confusão é esta?
- Viu as notícias, chefe? É um tal Subuel Mantil. O tipo tem contrato para ir para Marte, mas diz que não quer ir e que faz desaparecer Lisboanova se o Rirangel não falar com ele. O Rirangel não está pelos ajustes...
- O tipo pode fazer desaparecer Lisboanova?
- Não sei, chefe. Ele é só 2ª classe, mas está passado, e já se sabe o que acontece quando eles se passam.
- Então vai precisar de reforços?
Pausa.
- Bem... pelo sim, pelo não, se calhar é melhor.
-oOo-
As forças colocaram-se no terreno, pelo sim, pelo não. Uma companhia de magos de intervenção, com equipamento completo (escudos, varinhas de condão, bastões, chapéus pontiagudos repletos de tautoarmamento miniaturizado) cercou a sede da TEP, em Lisboa. A PSP foi dispensada para trabalhos menores, como bloquear o trânsito nas imediações. Negociadores do Sindicato dos Mágicos e Afins do Sul e Ilhas posicionaram-se nos pontos acusticamente mais favoráveis à comunicação com o barricado. Pelo sim, pelo não, um batalhão inteiro de magos especializados em contra-feitiços foi chamado a reforçar a Central de Exorcismo de Deimos para monitorizar as ondas etéreas e contrariar qualquer ataque importante contra Marte. Os cidadãos de Lisboanova foram avisados para não saírem de suas casas e foi aberta uma linha etereofónica especial para dúvidas e reclamações. Pelo sim, pelo não, foram transmitidas instruções especiais para o caso de serem detectados sinais de desaparecimento ou mesmo simples enfraquecimento da estrutura molecular dos materiais, biológicos ou não, na capital dos interesses portugueses em Marte.
Tudo parecia estar a postos contra o que quer que Mantil pudesse fazer no preciso momento em que Colossal Piramidal começou a discutir com o seu chefe directo sobre o que teria acontecido à última sementeira de pólipos de Mesmer, que em vez de convencerem o solo das redondezas a segregar oxigénio para a ainda rarefeita atmosfera marciana, tinham-no simplesmente transformado em areia, causando assim um prejuízo considerável à Companhia de Enfeitiçamento Terraformativo de Marte.
Dez minutos depois, Piramidal tinha sido despedido e preparava-se para ir apanhar uma grande bebedeira em Phobos. Claro que já tinha bebido uns copos valentes em Lisboanova: em Phobos não havia vinho do Redondo.
Apesar disso, tudo ainda parecia estar a postos.
-oOo-
O agente Ramos estava com os azeites. Merda era esta de dispensar o batalhão? Que tinham os merdas dos magos que mandar na polícia? O caraças!
Por isso, esgueirou-se à socapa para fora do cruzamento entre duas ruelas que tinha ficado encarregue de controlar, ele mais a sua espingarda de dardos anestesiantes, no que era, sem dúvida, um claro acto de insubordinação, duramente reprimido pelo regulamento. Mas o agente Ramos estava com os azeites. Não gramava a merda dos magos. Nem um bocadinho. Por isso, merda pró cruzamento!
O agente Ramos aproximou-se do edifício da TEP em passo rápido e rosto fechado, como quem vai em missão urgente. Todo ele dizia "não se metam comigo, tenho mais que fazer". E os magos da Judite olhavam para ele e não faziam nada, deixavam-no apenas passar.
Nesse preciso momento, Zé Tiago preparava-se para falar com o barricado mais uma vez. O campo encantatório que os seus colegas tinham construído em torno da sede da TEP brilhava ligeiramente ao sol do princípio da tarde. Nada deveria conseguir atravessar uma defesa daquelas. Lisboanova estava segura.
Nesse momento preciso, Colossal Piramidal debruçava-se, podre de bêbado, da janela da cúpula-vassoura que a companhia tinha colocado à sua disposição e que ele, recém-despedido, se preparava para roubar, e gritava:
- Morram (hic!), cabrõõõõõões!
-oOo-
- Olhe, sr. Mantil - disse Tiago, quando conseguiu a atenção do outro, - o dr. Rirangel continua em reunião. Se o senhor lhe expuser o seu problema detalhadamente, de certeza que ele...
- Ai meu Deuuuus!...
e a sonda etérea desapareceu, a porta pôs-se a luzir com uma aura cor de laranja, e de dentro da casa de banho começou a sair um estrondo ensurdecedor onde se misturavam gritos, ruídos de vidros e cerâmica a partir-se e uns sons cavos e intermitentes, dir-se-iam flatulências de animais gigantescos.
O agente Ramos já estava demasiado próximo do edifício para ver a coluna de luz lilás que se elevou de repente do seu topo, mas testemunhas que estavam na zona das Amoreiras juraram que no centro da coluna se podia ler uma torrente de letras do alfabeto romano: "...udeuuuusaimeudeuuuusai- meudeuuuusaimeudeuu...". O agente Ramos só ouviu os gritos no etercomunicador, que informavam, numa cacofonia insuportável, que Lisboanova desaparecera do mapa marciano e, antes de desligar o aparelho, a última transmissão que ouviu foi uma voz de cana rachada que ia dizendo "...rreram mesmo, os ca..."...
Tiago, esse, perdeu os sentidos, atingido em cheio pela onda de energia taumatúrgica que se soltou da casa de banho. Caiu no chão com um flop harmonioso, no meio do concerto de tumps e clangs feito pelas outras pessoas que se encontravam no átrio da TEP. Todo o edifício foi afectado, e quando, no rescaldo, os serviços de emergência chegaram ao 69º andar, encontraram Rirangel morto, vestido com as meias pretas da secretária que, toda nua, estava também morta por cima e em torno dele.
Minutos depois, no momento em que o agente Ramos transpunha a porta que dava entrada ao átrio e sacava da sua espingarda de dardos, lá longe Deimos explodia em mil bocadinhos, curiosamente todos eles alinhados pouco depois em órbitas paralelas que ao fim de uma semana formavam um anel cinzento em torno do planeta vermelho. Ramos tinha o rosto contraído num esgar de ódio quando pontapeou a porta da casa de banho, fragilizada pelo abalo que sacudira todo o edifício, desaparecidos todos os feitiços que a defendiam, com toda a força dos seus 125 quilos. O mago Mantil só teve tempo de voltar-se e começar a berrar
- Ai meu De...
calando-se no momento em que foi atingido pelo primeiro dos 12 dardos tranquilizantes que estavam contidos no carregador da espingarda de Ramos. Não soltou mais um pio.
-oOo-
- Piramidal, se estás a tentar convencer-nos de que o Mantil fez isto tudo sozinho, desengana-te! Não caímos nessa! Portanto desembucha! Já!
Ai meu Deus, pensa o pobre Colossal, apanhado sem saber como no meio duma história com que não tem nada a ver, sem conseguir que alguém entenda que ele é apenas mais uma vítima das leis imortais do Mago Murphy.
- Ai meu Deus!

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O Caso Subuel Mantil

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