R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

Steaks Barbares

por João Seixas

conto publicado em 06.09.2001

republicado em 29.06.2005

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Sim, sim. Observa bem. É certo que as diferenças se esbatem com o intercâmbio cultural. O estômago universaliza-se. Mas isso não responde à pergunta que se encontra sempre por detrás da evidência.
O que é que leva determinado povo a comer determinado prato? Não se deixe enganar pela resposta fácil da disponibilidade e da necessidade. Embora a disponibilidade se alargue de dia para dia, a necessidade nunca teve nada a ver com isso.
Os nativos do lago Vitória, apesar de florescentes agricultores, comem bolos de mosca sem terem necessidade de o fazer. E nós, em França, comemos carne de cavalo quando dispomos de iguarias incomparavelmente superiores.
Ah, vejo que atinge o meu ponto de vista! Não me enganava quando diagnosticava em si uma inteligência invulgar.
Mas, uma vez formulada a pergunta, urge encontrar a resposta.
Isso ocupou-me nos dois anos seguintes. É verdade. De tão evidente, iludiu-me durante mais dois anos. Por fim, quando a alcancei e escrevi o capítulo final do meu livro - que jamais poderei apagar - vi-me obrigado, por mim próprio, é certo, a recolher-me a este retiro verdadeiramente cenacular.
Mas desordeno-me novamente na narrativa. Trata-se, afinal, do seu culminar apoteótico que, estou seguro, não lhe permitirá ficar indiferente.
Existe uma tribo, na então África Equatorial Francesa, os Oka, com os quais convivi durante dois meses. Já ouviu falar? Vejo que a sua cultura iguala a sua inteligência. É o ouvinte ideal. Combina esses dois atributos com uma saudável curiosidade. Não posso deixar de notar, porém, que não me leva de todo a sério.
Não o levo a mal. Simpatizo consigo e, de alguma forma, lamento ver-me obrigado a alterar completamente a sua existência. Sorri. Não me dá crédito. Vê-me, realmente, como um Kurtz perdido nos seus devaneios. Conrad sentir-se-ia realizado se me conhecesse, não é isso que pensa? E, no entanto, quer ouvir o grand final. Não o desiludirei, já que me ouviu com tanta paciência e atenção.
Pois bem. Entre os Oka, é bastante apreciada a carne do gorila, o qual eles caçam de forma notável. E observe que faço uso deste adjectivo com grande ponderação. E isso, porque os nativos se preparam para a caçada do gorila, da mesma forma como se preparam para a guerra. Não me perderei em detalhes. Salientar-lhe-ei apenas que fiquei convencido, como Du Chaillu - que os estudou exaustivamente - que os Oka nutrem um ódio visceral pelos gorilas, os quais são caçados com inaudita ferocidade.
Não raramente, matam mais gorilas do que aqueles que seriam necessários para alimentar toda a aldeia. Cheguei a ver, num incrível paroxismo de violência, três caçadores a massacrarem o cadáver de um gorila adulto, com lanças, paus, pedras e toda e qualquer arma que no momento consigam improvisar.
Como imagina, pude provar a carne de gorila, em grossos bifes de uma coloração vermelho-vivo que tanto estimula os nossos sentidos. A carne do gorila é dura e não é de todo agradável. Estes indígenas poderiam facilmente caçar outros animais de carne mais tenra e saborosa. No entanto, quando comi a carne que me ofereceram, compreendi porque é que os Oka a elegeram como seu prato principal; porque é que os atacam com tanto ódio e porque é que algumas tribos, na Ásia, África e América do Sul, caçam ocasionalmente alguns macacos.
Vejo, pelo seu silêncio, que já compreendeu. Sim, é isso, é exactamente isso! Trata-se da forma. Trata-se do patente antropomorfismo dos macacos. Chame-lhe canibalismo redireccionado, se preferir. Percebe agora o lhe disse há pouco.
Não é o gosto da carne que os leva a comer o gorila. É o poder que sentem por comer algo com forma humana. Algo de muito semelhante se passou em Java e em Samatra e no Bornéu quando se proibiu aos indígenas o seu macabro desporto de caçar cabeças. Quem pagou naturalmente, por via do nefasto destino que aproximou o seu corpo do nosso, foram os ourang-outans.
Sim, sim. Oh, creia-me que compreendo perfeitamente a sua repugnância pelos factos que lhe revelei. Trata-se realmente de uma daquelas patologias da natureza que gostaríamos de poder encerrar na grande arca do aberrante desconhecido e mantê-las aí sepultadas para todo o sempre.
Mas o simples facto de ficar repugnado demonstra que se apercebeu dos inabaláveis alicerces sobre os quais se apoia a história que tem tido a paciência de ouvir. E eis-nos chegados à inevitável conclusão que certamente os seus ouvidos temem ouvir. Receia ter descoberto que por vezes é melhor mantermo-nos na nossa corriqueira vida diária do que descobrir determinadas verdades.
Lamento se sou indelicado e apresento-lhe as minhas desculpas por isso. Receio ter subestimado a sua sensibilidade, mas ao mesmo tempo retraio-me perante o que me resta para lhe contar.
Ah!, um homem destemido! Não me enganava. A sua curiosidade dignifica-o, o seu interesse enriquece-o.
Mas continuemos então. Creio que depois desta revelação, não lhe é difícil calcular qual o passo com que transpus a linha que me separa da humanidade.
Estremece. Não quer acreditar. Mas sim, é verdade. Compreende que não lhe direi nem onde nem como. Apenas lhe posso dizer que se tratou de um alucinante desmoronar da educação tipicamente ocidental que recebi. Mas, simultaneamente, foi o desabrochar de uma nova perspectiva do mundo e do homem, capaz de abalar a sanidade de qualquer existencialista.
Tornei-me, portanto, antropófago. Repugno-o? Calculei que sim. Infelizmente, no delírio em que me perdi, de novas experiências, não encontrei nunca um sabor tão sublime como o da carne de crianças de tenra idade.
É demais para si? Deixá-lo-ei digerir o que, imagino, para si sejam abjectas revelações. Não era esta a história que procurava. Uma história mais poética, mais digna de ser publicada nas páginas de um vespertino europeu, talvez? Uma história susceptível de ser acompanhada por dois bolos e um café? Nada de "este é o meu corpo, este é o meu sangue, tomai e comei todos"?
Lamento desiludi-lo.
Mas vejo que reage já às minhas palavras. Não errei também, quando lhe diagnostiquei um espírito forte.
Neste momento colocou-me na categoria das mais abjectas criaturas de Deus, ao lado dos violadores e dos assassinos. Ignora porém - e ainda bem, pois a vida ser-lhe-ia insuportável se o soubesse - que são muitos os que se entregam aos prazeres neófagos em todo o mundo. Mesmo no coração da Europa civilizada.
Oh, não. Mais do que um clube, somos uma sociedade. Ou, se preferir, uma subespécie dentro do Homo sapiens.
Não me crê? Pois eu próprio conheço um presidente e três ministros que o fazem. Bem como um ou dois secretários de Estado, com quem, creio, tem o prazer de privar.
Mas ainda bem que se mantém racional e encara friamente todos os seus temores.
Responder-lhe-ei com todo o gosto.
Na realidade, não é difícil obter crianças para os nossos fins, pese a delicadeza do facto de que a idade ideal da criança não dever ultrapassar os seis meses. O mercado de bebés, por muito que o surpreenda, é um comércio muito florescente. A vida nestas décadas conturbadas é muito difícil.
Mas a isso, acresce a beleza de ser feito à luz do dia, uma vez que existem pessoas em vários pontos chaves do poder. Não duvido, inclusive, que o meu amigo já tenha presenciado o transporte de vários bebés. Ao fim e ao cabo, quem é que não se deparou alguma vez com um camião do lixo parado alta madrugada junto de contentores vazios, e cujos serventes olham de forma estranha as almas vagabundas que com eles se cruzam?
Ou quem é que, esperando numa estação, não viu já um comboio, as mais das vezes apenas com um vagão de mercadorias, que passa sem parar, sem fazer soar a buzina estridente? Passam sempre na linha mais afastada da plataforma de embarque, sem luzes e sem abrandar, cortando o ar fresco da noite com o matraquear das suas rodas de aço nos carris.
Oh, sim! Somos mais do que os que poderá alguma vez imaginar. Mais do que alguém poderá imaginar.
Cala-se. Não se atreve a colocar a pergunta que leio nos seus olhos. A pergunta que toda a gente se põe. Sim, essa: A que é que sabe?
Teme a resposta. Antevê-a intimamente. Sim é verdade!
Vomita? A bílis ferve no seu estômago! É perfeitamente normal. O mesmo sucedeu comigo, antes de me aperceber do sabor delicioso da carne de criança. Do sabor a poder sobre os outros. O sabor a liberdade. Liberdade de cadeias morais, de grilhões sociais.... a liberdade de um mundo à parte.
Chora. Em breve se aperceberá do delicado sabor que marcou indelevelmente o seu paladar. Uma vez encetado é impossível parar. É um sabor que corrompe, que nos prende nas suas malhas, que nos alimenta e se alimenta de nós. Já o sente, não é verdade?
Corra. Sim, corra! Corra para sob o sol - para o qual não voltará a olhar da mesma forma. Corra para entre as árvores, cuja sombra jamais será a mesma. Corra até se cansar.
Depois, será um novo amanhã! Um amanhã entre dois mundos.

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