R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

Steaks Barbares

por João Seixas

conto publicado em 06.09.2001

republicado em 29.06.2005

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O alemão tinha sido marinheiro e viajara por todo o mundo. Conhecia um caleidoscópio inumerável de pratos que o estômago europeu, habituado à carne tenra e à batata cozida, não toleraria com facilidade, e os quais me preparava com vivo prazer e grande amabilidade.
Na altura questionava-me sobre o gosto. Sabe com certeza que a nossa língua distingue apenas quatro sabores, os quais são maravilhosamente activados pelo cheiro. Foi, com toda a certeza, esse facto que levou os nossos antepassados a cozinhar os alimentos.
Mas desvio-me mais uma vez da história, desta vez com uma aborrecida demonstração de sapiência. Mas faz tanto tempo que não falo com ninguém, que tenho tendência a exceder-me.
Seja como for, numa dessas maravilhosas tardes de sol, entre o rumorejar das águas e a fresca brisa do mar, folheava deleitado o "L'Homnivore" do Claude Fischler, - não leu? É pena - quando me deparei com o seguinte facto, nua e cruamente impresso nas páginas alvas: 250g de térmites africanas são mais nutritivas do que a mesma quantidade de carne. Insectos versus vacas! Porque é que, então, o homem prefere a carne? O argumento evolutivo não é válido, pois os nossos antepassados lemurídeos eram insectívoros e poucos dos primatas superiores são carnívoros.
Porquê, então?
Essa questão, por si só, não seria suficiente para me lançar na minha expedição gastronómica. Não sorria. Falo a sério. Eu era um arqueólogo dos nutrientes, um filósofo dos sabores. Enfim, e gracejando um pouco, os molhos eram os meus únicos imperativos éticos e estéticos.
Mas essa dúvida, aliada à progressiva exaustão das receitas do jovial hussardo, foi determinante.
Como deve calcular, uma pessoa capaz de comer como eu, não tem grandes limitações financeiras. Isso permitiu-me partir à aventura. Tinha que conquistar novos sabores. Alimentar a minha alma europeia com os exóticos pratos do mundo.
E aqui tem a razão porque abandonei tudo o que tinha. Tal como se deu ao trabalho de me procurar, eu parti em busca de novos sabores. Obedecia ao supremo prazer de comer.
E, a propósito, vejo que mastiga mais alegremente. O sabor parece ter mudado, não é verdade? É normal. Ao fim de algumas garfadas o paladar habitua-se. Continua um pouco dura? Não se trata de carne muito gorda, embora se possa preparar de forma mais tenra. Mas deixa-me extremamente feliz verificar que gosta. Ainda se vai tornar um viciado dessa carne, caso contrário não teria justificado a sua vinda aqui. O que, inevitavelmente, me faz retomar a minha narrativa.
Porque, acredite, sou eu próprio um viciado nesse peculiar petisco. Mas não saltemos etapas importantes da evolução do paladar. Não poderá apreciar completamente o delicado sabor dessa carne se não conhecer a sua mística.
Lancei-me, pois, na senda aventurosa dos sabores. E, creia-me, para um espírito caracterizado por uma quase patológica curiosidade infantil, como era o meu, foi uma experiência apenas comparável com a da criança que descobre um novo brinquedo.
Comprei um bilhete no primeiro vapor que partia para a América do Sul. Percorri-a de uma ponta a outra, dos picos gelados do Estreito de Magalhães ao delta lamacento do Orenoco. Daí, para as ilhas do Pacífico, que me serviram de ponte para o exotismo extremo-oriental.
Não o vou sobrecarregar com fúteis descrições paisagísticas que lhe devem ser por demais familiares. Vejo-o íntimo da literatura de viagens e conhecedor de alguns recantos deste nosso pequeno globo rochoso. Conseguiu inclusivamente encontrar este obscuro coração do nada. Limitar-me-ei, por isso a dizer-lhe - e peço mais uma vez que me creia - que tive perante mim os mais estranhos pratos que a sempre prodigiosa imaginação humana pôde conceber.
Não quero, porém, deixá-lo no patamar da dúvida que leio nos seus olhos. Não, não negue!
Vou deixá-lo entrever a variedade infindável que me foi dada a conhecer.
Em Barranquilla, que se situa, como bem sabe, no Norte da Colômbia, pude degustar um delicado acepipe, o qual seria impensável pedir em qualquer restaurante de Paris. Olhar-me-iam como um selvagem e, no entanto, perderiam um delicado e inigualável sabor. Tratava-se de um feto de papagaio a poucos dias do choco. Servem-lho como se se tratasse de um ovo, o qual o meu amigo tem de abrir pelo meio, removendo cuidadosamente a fina casca. Uma vez feito isso, depara-se-nos um mundo sanguinolentamente pantagruélico. A gema dourada que se espera naturalmente encontrar foi já toda consumida pelo pequeno papagaio e, tudo o que surge aos nossos olhos, é a massa protomórfica do feto, ainda por definir.
A sua estrutura óssea é quase indefinida e tem uma consistência semelhante à espinha da sardinha. Acompanhado de um delicioso banyuls comem-se três ou quatro em ininterrupta sucessão. O seu sabor? É indescritível, uma vez que não lhe posso traçar um paralelo comparativo com qualquer prato tradicional. Mas pareço-me já com um dos meus livros. Peço-lhe que me perdoe estes pequenos devaneios.
Afianço-lhe, porém, correndo o risco de ferir os seus sentimentos religiosos, que me soube como o corpo de Cristo, ferrar os dentes nos músculos macios, ainda por enrijecer.
Espero não estar a ser desagradável. Ao fim e ao cabo, está a comer. Não? Já terminou? Não lhe vou pedir já a sua opinião. É um sabor que precisa ser pensado. É caracteristicamente inclassificável. Não sabe a nada de conhecido e simultaneamente recorda-nos algo familiar, não é assim? Pois creia-me, é esse o verdadeiro sabor da boa comida.
Em Bangkok, pude provar pénis de buffalo asiático. É verdade, ouviu correctamente. Pénis de buffalo. Abstraindo das inevitáveis associações sexuais é um interessante prato culinário. Talvez não saiba, mas esse apêndice mede, no buffalo, cerca de 60 cm e é caracterizado por uma consistência semelhante à de um tronco de palmeira jovem.
Para se comer adequadamente, é necessário que se cozinhe em fogo lento durante vários dias. O seu paladar não seria suficiente para justificar a espera, mas como terá de compreender, o mais importante no que comemos não é o sabor, mas a delicada interacção do prato em si, com os nossos padrões sociais. Com a nossa filosofia pessoal e com a nossa vivência. E isso sim, merece ser provado!
Mas filosofo de novo. Desvio-me do rumo da minha história, que foi afinal o que o trouxe até mim.
Pois bem. Durante quatro anos e meio, percorri o mundo, provando as maiores excentricidades e acrescentando milhares de notas manuscritas para o meu livro. Contactei, na Ásia e na África, com povos estritamente insectívoros, o que vinha a dar total razão ao prof. Fischler.
Mas, o mais surpreendente na minha expedição aventurosa foi, sem dúvida, o inevitável resultado a que cheguei. Li e reli, vezes sem conta, os meus apontamentos e, quisesse seguir a linha de pensamento que fosse - biológica, filosófica, antropológica ou estritamente gastronómica - a mesma conclusão ali estava, inabalável como um dogma. E eu sou um homem que não gosta de dogmas.
Mas que conclusão era essa? É assustadoramente simples. Diria mesmo, estupidamente simples. Mas não dizia Freud que o homem gosta de complicar tudo aquilo que lhe parece óbvio? Trata-se de um medo irracional que grande parte dos membros da nossa espécie nutrem pela verdade. Uma autêntica neofobia, da qual poucos se ousam libertar.
Acredite quando lhe digo que qualquer pessoa lá chegaria sem ter que perder quatro anos sentado em frente a milhares de mesas. Basta raciocinar em termos analíticos. O facto é cruamente, este: tudo o que nós comemos desde pequenos, que estamos habituados a encontrar todos os dias à nossa frente quando nos sentámos para almoçar, e que tomamos como universais, encontram-se em vergonhosa minoria, e não são mais que meros subprodutos culturais. Não é possível pedir um Cordon Bleu entre os Masai. Os esquimós não comem batatas. Na china, carne de cão é um prato tradicional.

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Steaks Barbares

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