R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

Desconhece-se o Paradeiro de José Saramago

por Jorge Candeias

conto publicado em 28.11.2001

republicado em 28.12.2003

Página: 1 | 2

Depois de sairmos da Terra, dirigimo-nos a Marte. Sei-o porque aterrámos (não aterrámos propriamente, mas enfim... não há tempo para explicar melhor nem para procurar palavras mais fiéis) junto do local onde ficou abandonada aquela pequena maravilha tecnológica que eu tanto critiquei por desviar recursos fundamentais num mundo cheio de seres humanos a morrer de fome. Reconheci-a, e reconheci o local, aquela planície cheia de pedras sob um céu cor de rosa. Mostraram-me esse planeta como ele é hoje, no presente, e depois vi como ele será no futuro e como foi no passado. Vi Marte repleto de homens e de actividade, cidades, primeiro dentro de cúpulas de vidro mas mais tarde sob um céu azul tão semelhante ao da Terra que me vieram as lágrimas aos olhos. Durante muitos dias, mostraram-me o planeta, local por local, quase pedra por pedra, desde o presente até um futuro que se me apresenta longínquo e para trás ao longo do tempo até ao dilúvio primevo que começou a esculpir-lhe a face. Compreendi, ou julguei compreender, que tudo se somava para aquele ponto no tempo em que pés humanos sulcassem aquelas areias estranhas pela primeira vez, e quando, após termos visitado o passado de Marte, fizemos uma breve excursão pelos planetas gigantes, julguei entender Marte como um exemplo, uma amostra, uma parábola parcial para um todo muito maior, porque o futuro dos planetas filhos do Sol se me apresentava repleto de homens, homens por todo o lado, de Mercúrio a Plutão, passando por uma miríade de corpos que nunca conheci por nome próprio ou apelido. Presumi que os homens não se tenham ficado pelo pátio do Sol e em vez disso tenham partido para outras estrelas, para chamar seus a outros locais, sob outros céus pintados com constelações estranhas para olhos terrestres, embora nada disto me tenha sido mostrado pelos meus cicerones.
Vi tudo aquilo com o olhar maravilhado de um homem que vê desenrolar-se na sua frente a história do cerco ao Universo inteiro, e nesse cerco estão os seus próprios filhos na primeira linha do combate, e que compreende que a insatisfação que sente dentro de si é a mesma que os leva a lutar, lutar sempre, contra todas as dificuldades, contra todos os impossíveis, com a Vontade como único combustível de uma passarola que nunca deixará de voar.
Depois trouxeram-me de volta a Marte, e deram-me a ver a evolução do planeta desde que pela primeira vez se revelou na sua individualidade de planeta, único e diferente de todos os outros, até ao meu anterior tempo presente, e digo anterior porque por essa altura já me sentia fora do tempo, um observador exterior, sem interferência nem influência na realidade. Deram-me a ver em paralelo a evolução do meu próprio mundo, os dois lado a lado, a Terra como um irmão mais velho de Marte, mas simultaneamente mais jovem, porque vivo. Vi nela o nascimento da Vida, vi nela o surgimento do Homem, as suas primeiras alegrias e tristezas e Marte vazio, as primeiras injustiças, as primeiras desigualdades e Marte vazio, o nascimento, apogeu e morte dos grandes impérios da Antiguidade e Marte vazio, as idades das Trevas e das Luzes, e Marte vazio, as primeiras máquinas e Marte vazio, as grandes guerras e Marte vazio, finalmente o presente e Marte vazio. E Marte vazio. No local onde a nave americana deveria ter ficado a enferrujar não havia nada, e na minha Terra as coisas também já não eram bem como eu as conhecia.
Será possível que tenha estado tão enganado? Será possível que a fome e o sofrimento sejam condições necessárias à sobrevivência dos homens? Não posso de modo algum aceitá-lo. Mas o que vi foi um mundo inteiro a concentrar os seus recursos e a sua atenção no fim da fome, da miséria, da indignidade humana e a morrer por isso. O que vi foi uma espécie que esqueceu o Espaço e que por isso não aprendeu uma série de técnicas e não descobriu um vasto conjunto de leis naturais necessárias à sua viabilidade, uma espécie que só se deu conta da poluição quando já era tarde demais, uma espécie que nunca desenvolveu mecanismos eficazes de controle ecológico porque não dispunha de um ponto de observação exterior à biosfera para a ajudar a aferir do grau de acerto das suas tentativas de correcção dos desequilíbrios que ia produzindo. E depois vi a derrota total, o regresso da fome e da miséria, o regresso da doença, o regresso da guerra e finalmente vi a morte.
Que contraste! E que paradoxo! Como com tudo o que de mau existe no mundo que somos o Homem prospera e com tudo o que de bom existe no mundo que deveríamos ser o Homem morre!
Não é possível que só possa ser assim, duma maneira ou doutra, a branco ou a negro. Tem de existir um caminho intermédio, um terceiro caminho, que possa compatibilizar sobrevivência com dignidade humana, um caminho que não deixe um travo amargo na boca dos homens que o seguirem. Mas para poder ter esperança de ser capaz de encontrar esse caminho tenho de saber mais, e por isso partirei de novo dentro de alguns minutos. Os meus companheiros, que companheiros se tornaram entretanto, companheiros de descoberta e de exploração, esperam-me, aparentemente pacientes, enquanto eu aqui sentado neste ambiente familiar divago sobre o destino do Homem. Tenham um pouco mais de paciência, que estou quase no fim.
E cheguei ao ponto em que terei de dizer claramente o que deixei entrever nas linhas mais acima: estou profundamente arrependido das palavras que proferi em condenação dos esforços científicos. Se encontrarem nos vossos sentimentos um lugar para o perdão, agradeço-vos, mas não poderei censurar-vos se no meu memorial ficar descrito como um cego disseminador da cegueira. No entanto, não renego a luta duma vida pela dignidade humana. Penso que se pode e deve solucionar todos os problemas em simultâneo. É para saber como fazê-lo que parto de novo. Por isso, meus amigos, não me lamentem nem chorem a minha ausência, porque estarei a lutar por vós, e por conseguinte por mim mesmo.
Pilar, um beijo de quem te amou sempre. Eu sei que compreendes. Espero estar de volta em breve, provavelmente num tempo muito mais breve para vós que para mim. Espero regressar mais sábio e com algumas respostas no lugar do que até agora são só perguntas. Até lá fiquem todos com os meus melhores desejos. E não parem de esforçar-se, pelo futuro.
 
Este texto encontra-se actualmente nas mãos dos especialistas para aferir da sua autenticidade. No entanto, uma fonte da faculdade de letras da Universidade de Coimbra disse à nossa redacção que numa análise preliminar o texto parece ser uma falsificação não muito perfeita, visto que o estilo fraseológico não corresponde inteiramente ao do escritor. Fica a questão: quem poderia tentar evitar suspeitas de rapto com um texto com tais características?
Nenhuma das personalidades contactadas até ao fecho desta edição mostrou a mínima abertura à hipótese de o texto relatar acontecimentos verídicos.

Página: 1 | 2

Gostou deste texto? Ajude-nos a oferecer-lhe mais!

 

Desconhece-se o Paradeiro de José Saramago

Jorge Candeias escreveu:

 

Sally

Edições Colibri

2002

(leia a crítica de Octávio Aragão)

 

O Telepata Experiente no Reino do Impensável

Jorge Candeias organizou:

O Planeta das Traseiras

e escreveu a introdução e os contos:

O Caso Subuel Mantil

No Vento Frio de Tharsis

Artigos de Jorge Candeias

Críticas de Jorge Candeias

Entrevistas de Jorge Candeias

Jorge Candeias - página de autor