R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

No Coração do Deserto

por Luís Filipe Silva

conto curto publicado em 15.11.2001

republicado em 30.04.2005

Página: 1 | 2

— Tomates e melões — indiquei aos europeus, assim que havíamos amansado a sede, e descansávamos na sombra de uma palmeira. Notara a relutância que os diplomatas haviam mostrado, quando as gentes macilentas e enfraquecidas lhes ofertaram o que era evidente tratar-se de uma porção substancial das suas reservas de água. Tinham ficado tocados com o gesto, e sentiam-se levemente culpados, como pude observar pelo modo dedicado como beberam a oferenda, não deixando cair uma única gota, não aproveitando um resto de humidade sequer para limpar o pó que lhes cobria os rostos. Desviei a vista; há momentos em que é duro ser-se diplomata. — Vegetais bio-modificados para aproveitarem toda a humidade do deserto. Estamos a pensar irrigar as planícies com água salgada do mediterrâneo, utilizando os oleodutos fora-de-uso.
— Regar vegetais com água salgada? Isso é prático?
— Ao contrário do que se esperaria, o esforço que o sal impõe sobre as culturas, obriga-as a uma melhor concentração dos seus recursos. Como exemplo, temos os melões, que, embora resultem mais pequenos, são mais doces, mais apetitosos.
Assentiram com a cabeça, impressionados.
— O nosso plano era a irrigação de uma vasta área, aproveitando ao máximo quer o terreno quer a mão-de-obra dos tuaregues. Podem imaginar — varri o cenário com o braço — o deserto transformado numa horta imensa, dando fruto onde outrora apenas existira aridez?
— Kel Tamashek — murmurou o sérvio.
— Perdão? — perguntei. Os colegas também o tinham ouvido.
O sérvio olhou espantado para nós.
— Desculpem, estava a pensar alto. — E perante os olhares curiosos, viu-se obrigado a explicar, no seu francês sofrido. — Kel Tamashek é a designação que os nómadas dão a si próprios. Tuaregues é um termo árabe, não propriamente... elogioso. — Encarou-me com um ar culpado.
Continuei, descontraidamente.
— O projecto ambicioso do governo serviria para dar trabalho a estas povoações, que o deserto empurra para norte a cada ano que passa. Relançar-se-ia a agricultura, num regresso à competitividade argelina no mercado mundial. — Encarei os europeus. — Naturalmente, estamos receptivos a quem queira estabelecer uma exclusividade de distribuição.
Não se pronunciaram, como era de esperar, pois uma palavra sua poderia ser entendida como um comprometimento oficial; no entanto, a semente estava plantada, e eles retornariam ao Parlamento com os frutos dessa semente, que talvez ficassem maduros durante a discussão dos apoios externos. Os europeus tinham de aproveitar todas as hipóteses de intervenção que lhes surgiam. Depois de o leste ter sido conquistado pelos americanos e japoneses, e os países latinos da América se terem constituído num bloco hermético e convicto, restava apenas África como mercado inexplorado — África, a tradicional terra dos interesses ocidentais. África, com os seus povos moribundos, com a sua ecologia em extinção, com a sua continuada falta de sistemas educativos, ansiava pelos estrangeiros, pelos novos invasores. Porque, se nos países do antigo pacto de Varsóvia, a penetração económica havia sido relativamente fácil, no continente negro e tórrido havia que educar a população, aumentar-lhe o nível de vida, criar o que se chamava de «condições de mercado». Apenas desse modo, poderia a Europa esperar que o povo comprasse as suas televisões, os seus terminais para a Rede informática, os seus métodos de maquilhagem genética e rejuvenescimento do corpo. Mas esse investimento seria dispendioso, e demorado.
Era chegado o momento de me levantar e mostrar a aldeia, o povo — para lhes expor a nossa cultura, bem como retirar-lhes da mente a suspeita em crescimento, de que a avaria do carro tinha sido demasiado fortuita. Tentei conversar com o chefe da aldeia, mas encontrava-se doente; enviou-me o filho, que não tinha ainda experiência e à-vontade para falar com representantes do governo, e se atrapalhava em servilismo e olhares de admiração mal disfarçada. Serviu, no entanto, para nos mostrar a aldeia e contar algumas das funções e das histórias das gentes. Durante a visita, indicou-nos uma construção curiosa: um conjunto de habitações cujos telhados eram forrados por material reflector, que os isolava das altas temperaturas. Num dos blocos, notava-se distintamente o círculo de estrelas gravado.
— Mas aquele é o Cyrano! — exclamou o francês. — O satélite que caiu no Sara há três anos.
— Eles encontraram-no no meio das dunas — expliquei. — E o que se encontra no deserto, não tem dono, pertence à terra. Como podem ver, é útil para se protegerem do calor violento. — Interiormente, estava divertido com a expressão do francês, ao contemplar o uso que os nómadas faziam do equipamento de milhões de ecus.
O motorista apareceu, a indicar que o helicóptero não demoraria muito. Os europeus despenderam os últimos momentos a ser assediados pelas crianças magras, mas cheias de energia, que passavam as mãos pelas camisas de algodão sintético, pelas calças, e tocavam naqueles seres estranhos, cuja pele era mais clara, e a estatura mais alta do que elas viriam alguma vez a ser. O sérvio, num repente inesperado, tirou o chapéu e entregou-o a um dos miúdos ansiosos, que prontamente o colocou e nele manteve as mãos, não fosse algum dos amigos ter ideias menos próprias. O sérvio sorriu, e eu sorri com ele, agradado pelo gesto. Não eram más pessoas, pensei. Situávamo-nos apenas em diferentes lados do tabuleiro, num jogo em que não se podia perder.
Quinze minutos depois estávamos já no ar, distantes da terra escaldante que fugia sob nós, passava aceleradamente sem a tocarmos, quase sem a conseguirmos apreciar. A aldeia estava longe. Em frente, a base militar; depois, Argel, e o clima do norte, mais fresco, mais húmido, mais humano.
— É uma terra tão dura — disse o sérvio. Parecia fascinado. — Tão exigente, tão caprichosa. Mas há nela uma honestidade simples e confiável, em que uma pessoa se pode descobrir a si própria; sabendo que será aceite, desde que siga as regras. É como as pessoas a quem a vida trata aos pontapés — lançava-me um olhar faiscante —; é difícil que se apeguem a algo, que gostem de alguma coisa. Mas quando amam... entregam-se de alma. Esta terra é assim. Oxalá que o projecto do seu governo resulte.
Olhei para baixo, para África, para a terra da aridez e da disputa. Durante milénios, esta terra criara um povo, uma cultura, que sabia fazer uso dos recursos escassos. Poderia África tornar-se na terra da abundância? E nós, os seus habitantes, em que nos tornaríamos?
Inchallah — foi a minha resposta. Se Deus quiser.

Página: 1 | 2

Gostou deste texto? Ajude-nos a oferecer-lhe mais!

 

No Coração do Deserto

 

Luís Filipe Silva escreveu:

 

Terrarium

com João Barreiros

Editorial Caminho

colecção Caminho Ficção Científica

1996

(leia a crítica de Jorge Candeias)

 

Galxmente — Cidade da Garne

Editorial Caminho

colecção Caminho Ficção Científica

1993

 

Galxmente — Vinganças

Editorial Caminho

colecção Caminho Ficção Científica

1993

 

O Futuro à Janela

Editorial Caminho

colecção Caminho Ficção Científica

1991

 

A Recordação Imóvel

Artigos de Luís Filipe Silva

Críticas de Luís Filipe Silva

tecnofantasia.com

Tecnofantasia, o blog