R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

Terrarium

por João Barreiros e Luís Filipe Silva

uma crítica de Jorge Candeias

publicada em 21.07.2003

Terrarium tem tudo para ir parar à pequena história da FC portuguesa num lugar de grande destaque. Senão, vejamos:
  • Com as suas quase 600 páginas, é o maior romance de FC já escrito e publicado em Portugal.
  • É o primeiro (e até agora único) romance da FC portuguesa que nasce da colaboração entre dois autores de topo do género entre nós.
  • É um romance estruturalmente bizarro, o que se reflecte no subtítulo (um romance em mosaicos).
  • É por muitos considerado o melhor romance de FC já escrito em língua portuguesa.
  • E, do lado negativo, é o romance que marca o quase desaparecimento dos dois autores, que não voltaram a sair em livros próprios até hoje, tendo publicado apenas contos em revistas e colectâneas e, mais recentemente, na web.
Terrarium não é um romance fácil. Antes de mais nada, exige, para o seu desfrute pleno, um conhecimento considerável da história da FC, desde a época dos pulps até à produção contemporânea. Ora isto é coisa que muito poucos leitores portugueses têm, sendo que esse conhecimento é praticamente impossível de encontrar fora do restrito grupo dos leitores habituais (diria mesmo diários) de FC. Por outro lado, o romance não está estruturado da forma clássica tão querida do comum dos leitores de FC, antes utiliza alguns recursos pós-modernos. Terrarium começa por ser uma noveleta de João Barreiros, A Arder Caíram os Anjos, publicada independentemente no Brasil, à volta da qual todo o resto do livro vai sendo construído pela adição de camadas de contos, novelas e até um texto do tamanho de um pequeno romance, No Coração da Luz. Quase todos estes textos têm capacidade para resultar de forma autónoma, mas a sinergia que se consegue pela sua junção é de tal ordem que cria uma unidade no livro que vai muito além daquilo que se conseguiria numa mera colectânea de contos interligados.
E isso, atendendo à mistura de vozes, é obra. É que, muito embora este livro seja fundamentalmente um fruto da pena de João Barreiros, senhor de um estilo muito próprio e dificilmente confundível, tem uma participação que é longe de ser irrelevante por parte do outro autor. Segundo Barreiros, Luís Filipe Silva escreveu o conto que abre o livro (O Segredo), a novela A Madrugada dos Deuses, partes de No Coração da Luz e dois dos três finais alternativos que encerram o volume (O Mundo sem Homens e O Mundo sem Potestades).
A(s) história(s) são fragmentos de uma luta titânica entre as Potestades, alienígenas quase incompreensivelmente mais desenvolvidos que a humanidade, bordejando a qualificação de deuses, e os Ixyitil, mais uma espécie exótica de altíssima tecnologia, em que surge um personagem misterioso que encarna o arquetípico anjo caído. Uma luta de titãs que se desenrola, para azar nosso (e o livro está repleto de azares), no nosso pequeno e inocente planetinha. Na realidade, o planeta que já não é propriamente nosso, enxameado como está por milhões de alienígenas de níveis de desenvolvimento tecnológico apenas um pouco superior ao nosso, refugiados de outras partes da Galáxia, fugindo desta mesma guerra de potestades. E todos a lutar uns contra os outros por todas as migalhas de tecnologia avançada que consigam apanhar, numa cacofonia fora de qualquer espécie de controlo.
Como é apanágio da ficção de João Barreiros, aqui fielmente seguida pelo co-autor, as coisas vão-se desenrolando com um detalhe que chega a ser barroco, numa hiper-violência demencial e, claro, sempre cada vez pior até à catástrofe final. Uma coisa o livro não é: chato. As 600 páginas não passarão num ápice, mas passam certamente depressa.
OK, então Terrarium é um livro complexo na história e na estrutura, exigente, não chato, etc. Será que não tem defeitos?
Até tem alguns, sim.
A prosa é geralmente boa, chegando mesmo a ser brilhante, por vezes. Mas isso não evita que, aqui e ali, apareçam frases e palavras que pura e simplesmente não se usam em português, palavras e expressões típicas das más traduções de textos ingleses ou americanos. Deficiências de revisão? É provável que sim, mas em última análise a responsabilidade é do(s) autor(es).
Mas o principal defeito está indissociavelmente ligado a uma das principais qualidades do livro. É que escrever um livro a quatro mãos não é apenas colar pedacinhos escritos por Fulano e Sicrano e rezar para que o resultado saia coerente. Exige um enorme trabalho de coordenação quer do enredo quer do próprio estilo narrativo (a não ser nos casos especiais em que mudanças no estilo têm relevância e fazem sentido no contexto da história). Ora, se João Barreiros e Luís Filipe Silva tiveram o cuidado de coordenar o enredo, já quanto ao estilo raramente o fizeram. Os locais onde Barreiros se interrompe e dá lugar a Silva são quase sempre demasiado evidentes, e os dois escritores como que coexistem de forma tensa nas páginas do romance.
Teria sido evitável? Dificilmente. A prosa de João Barreiros é demasiado característica, e o próprio Barreiros não é escritor que aceite bem a necessidade de escrever de outra forma que não a sua. Uma coordenação estilística mais profunda significaria quase inevitavelmente uma diluição de Luís Filipe Silva. E este também não veria tal coisa com bons olhos, certamente.
Assim, quem fica a perder é o romance. Esta luta de vozes fá-lo perder parte da sua eficácia, fazendo-o baixar a barreira do extraordinário. Mas ainda assim, é um romance excelente, e imprescindível para todos os que querem dizer com propriedade que sabem algo do que falam quando falam de FC portuguesa.
Cinco estrelas.

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Terrarium

por João Barreiros e Luís Filipe Silva

Editorial Caminho

Colecção Caminho Ficção Científica, nº 175

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Jorge Candeias escreveu:

 

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2002

(leia a crítica de Octávio Aragão)

 

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e escreveu a introdução e os contos:

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