R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

Cryptonomicon

por Neal Stephenson

uma crítica de Artur Coelho

publicada em 20.10.2006

Página: 1 | 2

Com a guerra na Europa a chegar ao fim, o que para os criptógrafos e conhecedores dos segredos de estado aconteceu dois anos antes do final das hostilidades físicas, Waterhouse é destacado para a Ásia, onde colabora no esforço militar contra o Japão. Para decifrar os códigos japoneses Waterhouse desenha e constrói um computador primitivo, apoiado em cartões perfurados e válvulas. Na Ásia, Waterhouse depara-se com um estranho código indecifrável, chamado de Arethusa, criado pelo rival/amigo de Turing e Waterhouse, Rudy Hackleberger (rival devido aos tempos de guerra, mas amigo pelo respeito mútuo criado pelos laços matemáticos). Ao decifrar o Arethusa, Waterhouse depara-se com uma estranha conspiração, que terá repercussões no futuro.
Bob Shaftoe é mais do que o comum soldado dos fuzileiros norte-americanos. Inteligente e perspicaz, Shaftoe é dotado de uma extrordinária coragem, que o torna capaz de realizar as missões mais arriscadas. Quando destacado em Xangai antes da Segunda Guerra, Shaftoe trava uma inesperada amizade com Goto Dengo, um japonês que o ensina a apreciar os prazeres do sushi e da poesia haiku. A sua coragem nos campos de batalha leva-o a ser integrado no destacamento 2702, passando a guerra em missões secretas de desinformação um pouco por todo o mundo. Uma dessa missões corre mal — a traineira onde o destacamento 2702 seguia disfarçado de negros das caraíbas é afundada por um submarino alemão comandado pelo idiosincrático Comandante Bischoff. Tendo capturado personagens conhecedoras de tantos segredos vitais, Bischoff é alvo de uma campanha de desinformação que leva o alto-comando alemão a acreditar que o seu submarino foi capturado por tropas especiais aliadas. Perseguido pelas marinhas aliadas e nazi, Bischoff encontra refúgio na Suécia, onde convence Shaftoe e o inefável Enoch Root a participar numa estranha conspiração, ajudados por contrabandistas finlandeses e por um Rudy Hackleberger desiludido com a estupidez do regime nazi. Shaftoe encontra a sua morte nas Filipinas, onde consegue chegar por caminhos ínvios, tentando resgatar o seu filho das garras da soldadesca nipónica que ocupava brutalmente as ilhas.
Se Waterhouse é o prototípico génio, uma mente brilhante incapaz de aplicar os seus conhecimentos nas realidade prosaica e banal, Enoch Root é o seu perfeito oposto. Culto e erudito, Root é um homem de acção, um clérigo pertencente a uma ordem secreta que colabora activamente no esforço de guerra do destacamento 2702. Root é um homem de bastidores, manipulando as restantes personagens de forma subtil. Root forma uma ponte entre o passado e presente, influenciado os personagens do romance ao longo dos tempos.
Goto Dengo é um engenheio de minas que perde os seus ideais ao viver a brutalidade da guerra na Ásia. Desiludido com a brutalidade e as atrocidades cometidas pelos seus compatriotas em nome do imperador, Dengo é destacado para a construção de um bunker secreto nas Filipinas. Apercebendo-se que a conclusão da construção o levará à morte — o bunker, na tradição de alguns túmulos imperiais, é tão secreto que todos aqueles que participam na sua construção são sumáriamente executados — Dengo faz um trabalho de génio, construindo um bunker à prova de invasões, mas que também funciona como uma gigantesca máquina de evasão para si e para alguns dos mais resistentes dos seus trabalhadores. Após a capitulação do Japão, Dengo trabalha activamente na reconstrução do país, criando aquela que no futuro será uma das melhores empresas mundiais de grandes projectos de engenharia.
Nos dias de hoje, Randy Waterhouse, neto de Lawrence mas desconhecedor dos segredos do avô, abandona uma vida entediante nas fronteiras do mundo académico para fundar uma nova empresa nas Filipinas. A Epyphite, o sugestivo nome da empresa, tem dois objectivos — provar a sua viabilidade através de um rentável negócio de comunicações nas Filipinas, e expandir-se. A sua expansão passa pelo Sultanato de Kinakuta, país fictício inspirado no sultanato do Brunei. Rico em petróleo, Kinakuta é governado por um sultão branco de origem britânica (tal como o Brunei é governado pelos rajás brancos, súbditos da coroa britânica). Em Kinakuta, Randy envolve-se num projecto de criação de um data haven, um local seguro onde dados informáticos estarão guardados ao abrigo das vontades governamentais. Os elementos da Epyphite, um bando heterogéno de criptógrafos libertários encabeçados por um israelita cujo projecto de vida é impedir genocídios, acabam por se descobrir num pântano.
A criação do banco de dados atrai criminosos obscuros, membros corruptos de governos totalitários e a rapacidade de investidores capazes de usar as mais arcanas armas legais para obterem o controlo das acções da empresa. Randy vive um verdadeiro calvário, desde os dias em que numas escaldantes Filipinas põe de pé o negócio original. Apaixona-se por Amy Shaftoe, neta de Bob Shaftoe, que trabalha com o seu pai na colocação de cabos submarinos e no resgate de tesouros submersos. As operações de colocação de cabos revelam o paradeiro de um submarino da Segunda Guerra, cheio de barras de ouro e de uma referência ao avô de Waterhouse, que leva Randy a descobrir os segredos do seu avô, nos quais se incluem os códigos Arethusa decifrados. Randy atrai as atenções de Enoch Root, que o manipula na descoberta do segredo dos códigos Arethusa — a localização de um tesouro escondido nas selvas filipinas, dentro do bunker construído por Goto Dengo. Esse tesouro está ligado com o submarino afundado — este faz parte de uma rede submersa da Segunda Guerra mundial, que tranportava ouro e materiais altamente valiosos num comércio submerso entre a Alemanha nazi e o Japão imperial, com ouro trocado por segredos industriais e tecnológicos. O submarino encontrado pelo pai de Amy era o submarino de Bischoff, roubado por este ao alto comando naval alemão, onde a conspiração oculta de antigos inimigos transportava ouro que planeava ocultar nas Filipinas, para o recuperar após o final da guerra. O plano falhou, pois o submarino foi afundado em pleno mar da China, mas o segredo não se perdeu, guardado por Root ao longo dos anos. A descoberta do tesouro despoleta uma série de aventuras rocambolescas em que um relutante Randy Waterhouse se vê envolvido.
Mas e então, a critpografia? Ela é o fio condutor do livro; tudo, no livro, se passa à volta dos códigos; grande parte da acção deve-se aos códigos. Boa parte das páginas do livro são dedicados à explanação de códigos e a resenhas onde a história se mistura com pormenores ficcionados; de facto, o livro até contém um script em Perl que gera um algoritmo de cifra. Toda a acção passada durante a Segunda Guerra depende dos segredos criptográficos — as excitantes acções de desinformação do destacamento 2702, os insights de Waterhouse na decifração de códigos militares. O fio condutor da acção do livro passada na época contemporânea envolve-se com as consequências da internet e da criptografia, e do que essa mistura significa para uma socidedade onde os dados binários assumem uma importância cada vez mais vital.
Se pensam que este texto já vai longo, esperem pelo livro... o Cryptonomicon é uma obra volumosa (a minha edição ultrapassa largamente o milhar de páginas). Volumoso, mas não entediante — Neal Stephenson criou em Cryptonomicon uma história muito pessoal da informátia, disfarçada de thriller tecnológico. Se as personagens e as situações são fictícias, o enquadramento não o é. Conhecedores da história da Segunda Guerra conhecem bem a importância do decifrar dos códigos Enigma para a derrota nazi. A rede de comércio submarino é um facto obscuro, mas bem real, da Segunda Guerra. Havia submarinos destacados para esse serviço, que transportava debaixo das águas a tecnologia alemã para o Japão em troca do ouro saqueado pelos nipónicos em toda a Àsia. Não se pode dizer que fosse uma rede global de comércio submarino envolvendo centenas de aparelhos – os submarinos destacados para estes serviços não passaram das dezenas, mas era uma forma primitiva de comércio global de mercadorias reduzidas de grande valor. Bletchley Park e Alan Turing são referências obrigatórias na história da informática — o esforço de quebra das cifras alemãs levou a construção dos primeiros computadores. As aventuras da criação de uma empresa da nova economia reflectem bem os ambientes dos mercados económicos, patrulhados por investidores milionários que se apoiam em advogados para extraírem lucro sem nada construírem. O problema dos bancos de dados privados já é uma realidade, permitindo capacidades inimaginadas que ultrapassam as proezas bancárias offshore. E a tentativa dos governos em controlar a disseminação das tecnologias criptográficas é bem real.
Em Cryptonomicon, Neal Stephenson ultrapassa as barreiras do movimento cyberpunk, com um brilhante romance histórico que mergulha nas raízes do mundo informático tão adorado pelos cyberpunks. Cryptonomicon é mais do que pura ficção científica — é história da tecnologia e da ficção científica, contada de forma excitante e empolgante.

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Cryptonomicon

por Neal Stephenson

Avonbooks (EUA)

2002

Críticas de Artur Coelho