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Tendências e Desafios da Ficção Científica Brasileira

por Marcello Simão Branco

artigo publicado em 25.05.2005

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Assim, o que temos? Inquietação existencial e experimentação formal, ou influências de tendências estrangeiras mescladas com elementos de 'brasilidade', sem grande apuro estilístico? Examinemos as duas possíveis situações.
Depois de tantos anos lendo ficção científica brasileira contemporânea é fácil identificar os temas e a maneira de escrever da maioria dos autores presentes. Cada um ao seu modo tem buscado desenvolver uma voz própria, com resultados mais ou menos competentes. A este fato óbvio, acrescente-se que o finado Movimento Antropofágico e as antologias temáticas que dela derivaram do ponto de vista ideológico, meio que direcionaram o que boa parte dos autores escreveu em termos de ficção científica e fantasia. Isso é inevitável, primeiro para acabar de vez com a tal "Síndrome do Capitão Barbosa" e em segundo lugar para aproveitar a nesga de mercado que restou: ou se aceita escrever sobre o que os editores pedem, ou não publicam. (Ou ficam restritos aos fanzines, como foi o caso de alguns.)
Dentro deste contexto, a ficção científica brasileira vem perdendo originalidade e um certo sentido do que chamo tanto de 'inquietação existencial', como de 'investigação social'. A primeira que diga de forma mais intimista que visões de mundo um autor de ficção científica poderia projetar e especular. E a segunda, que nos levasse mais longe, além do senso comum, sobre as conseqüências futuras, sociais e políticas, da realidade brasileira.
Mas, ao invés dos autores buscarem estas possíveis linhas temáticas mais adultas e provocadoras, eles têm (em boa parte das vezes) se infantilizado. Não que isso seja necessariamente ruim, mas o fato é que nem estes trabalhos mais pulps conseguem atingir – em sua maioria – uma qualidade um pouco mais diferenciada do ponto de vista literário. São leves e divertem, mas não vão muito além de um entretenimento de qualidade razoável.
Assim, temos autores que escrevem dentro de universos ficcionais por eles criados. Outros se exercitam em universos compartilhados. Alguns outros ainda se remetem a fórmulas e influências de autores do passado. E mais alguns têm se repetido tematicamente por anos seguidos com visível perda de vigor criativo. E a todo este quadro de pouca originalidade, soma-se uma parca experimentação de estilo e apuro do texto.
Para tornar mais claro o argumento, farei um brevíssimo comentário sobre alguns dos autores mais representativos do período que estou analisando. Deixo claro, desde já, que as nuances e detalhes da obra ou do estilo deste ou daquele autor pode sofrer alguma perda, visto que toda generalização aumenta o risco de erro.
Comecemos por Gerson Lodi-Ribeiro e seu universo alternativo de negros palmarinos libertos e vampiros 'científicos'. Um autor que se desenvolveu com competência ao longo dos anos, superando em sua maior parte uma narração excessivamente informativa, deixando que os personagens tenham mais identidade e voz própria. Suas histórias alternativas do "Ciclo de Palmares" são interessantes e bem contadas, mas já se fazem por repetir em demasia. A contribuição de Gerson, com a introdução sistemática da história alternativa em nossa ficção científica, vai além de sua ficção, com seus artigos publicados no Megalon e uma antologia temática, Phantastica Brasiliana (2000). E a seguir nesta toada, talvez a longo prazo, sua contribuição ao subgênero da história alternativa no Brasil, seja mais efetiva como crítico e editor, do que como ficcionista.
Continuemos com Roberto de Sousa Causo, e suas histórias de ficção científica de teor bélico, com forte componente ético e humanista, que já produziu textos instigantes como Patrulha Para o Desconhecido (1991), mas que não tem conseguido avançar para um desdobramento diferente – ou transcendente ao tema em si. Aventuras mais recentes como O Salvador da Pátria e Terra Verde (ambas de 2000), que se passam na selva amazônica, são um esforço interessante e com bons resultados, mas continuam na mesma chave de composição de enredo das histórias de teor bélico. O problema de Causo não é com seu texto fluente – com melhora visível ao longo dos anos –, nem com a boa carga dramática que imprime, nem com personagens críveis, mas com algumas dificuldades em se libertar das amarras temáticas que construiu. Para quem já leu várias dessas suas histórias, o efeito de uma nova é pequeno, pois há pouca variação de enredo entre uma história e outra, além das características dos personagens também serem semelhantes na maior parte das vezes.
É bom frisar que ambos não tem se limitado historicamente a estas temáticas mais recorrentes. Gerson, vez por outra, ainda entra na seara de histórias com abordagem mais hard – recentemente também por meio de seu pseudônimo Daniel Alvarez. E Causo, além de não se limitar tanto ao tema da ficção científica militar, tem escrito saborosas dark fantasies, talvez o melhor caminho para sua prosa de bom conteúdo realista e percepção apurada das opções ambíguas das atitudes humanas, potencializadas num ambiente fantástico. E ademais, Causo, assim como Gerson, se impôs à tarefa de crítico e seu trabalho de pesquisa histórica, teoria e análise comparada, vista no recém saído livro Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875-1950 (2003), se reveste de uma importância a par com sua ficção. Mas tanto o carioca Gerson, como o paulista Causo, insisto, têm em suas temáticas recorrentes uma busca mais permanente e ambiciosa, ainda que tenham obtido a esta altura resultados menos criativos do que se supunha quando publicaram suas primeiras histórias em seus backgrounds favoritos.
Falemos de Miguel Carqueija, um autor com uma carreira já longa, que abordou vários temas da ficção científica, com um bom ritmo para aventuras e diálogos de personagens. De uns anos para cá, contudo, tem se repetido em alguns assuntos mais específicos, como heroínas, fanfics e pastiches lovecraftianos. E permeado por uma visão de mundo ingênua, conservadora e, por vezes, inverossímil, como visto na recém lançada noveleta A Esfinge Negra (2003). Carqueija tem constância narrativa, mas ela não resultou em melhora qualitativa na maior parte de suas histórias.
E o jundiaiense Carlos Orsi Martinho tem dedicado parte de seu tempo a escrever fanfics e contos para universos compartilhados, quando poderia escrever – e já mostrou que pode –, histórias mais originais e surpreendentes. Isso depois de uma longa primeira fase calcada no universo de H.P. Lovecraft que o autor, felizmente, parece que abandonou – ainda que tenha produzido alguns contos muito bons, para além da mera homenagem. Arrisco a dizer que sua noveleta Aprendizado (1992) é um dos poucos clássicos genuínos da FCB em toda a Segunda Onda – e é um texto original dentro de sua obra. Talento e criatividade ele tem de sobra. Ainda falta desabrochar uma voz que seja só sua.
Há o caso do jornalista Jorge Luiz Calife, o mais hard de nossos autores, possuidor de texto fluente e por vezes lírico, com descrições de cenários espaciais competentes e bom conhecimento científico. Mas escreve a única ficção científica que sabe, a do seu universo de Padrões de Contato. O que era uma novidade hard superinteressante há quase vinte anos, acabou virando uma imensa novela que nunca mais termina, só variando sobre o mesmo tema, cada vez com menos brilho, como visto em sua coletânea As Sereias do Espaço (2001).
Mas tivemos sim uma novidade no cenário da FCB: Octavio Aragão criando a "Intempol" (1998), de início uma idéia simpática, mas que tem tido também o efeito de aglutinar autores das mais variadas tendências para escrever quase que só isso. Aragão certamente não imaginou esta decorrência ao criar as peripécias de sua polícia temporal – que já renderam alguns pares de boas aventuras. A junção dos autores que nela tem se exercitado, dá-se, creio, mais pela possibilidade de publicação e alguma visibilidade por meio da internet, do que por uma preferência temática per si de cada colaborador.
Há também três outros autores que considero talentosos: Fábio Fernandes, Ataíde Tartari e Simone Saueressig. Fábio é muito interessante, com boa prosa, soluções animadoras de estilo, idéias perturbadoras e personagens densos, paranóicos. É uma pena que sua coletânea Interface com o Vampiro (2000) seja tão pouco conhecida. Recentemente, porém, também escreveu um fanficA Paixão Segundo S.H., publicada na mais recente antologia temática da FCB, Como Era Gostosa a Minha Alienígena! (2003) –, e tem escrito aventuras para a "Intempol". Ainda que elas sejam – ao lado das escritas por Octavio Aragão –, as melhores que este universo compartilhado mostrou até o momento.

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