R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

Dan Simmons e a Nazificação dos Afectos

por João Barreiros

artigo publicado em 30.10.2001

republicado em 15.06.2003

Ora bem. Todos gostaríamos de partir do princípio que o vulgar leitor de livros de FC e fantástico é um indivíduo culto, bem formado e de gostos eclécticos. Como pode ele estar sujeito à tal "nazificação"?
Mas a verdade é que está.
Escutem estes comentários que as minhas orelhas captaram e que o meu wetware neuronal (que a terra há-de comer) processou em tempos. Juro-vos que todos eles são verdadeiros.
 
"Não leio livros escritos por gajas."
"Não leio autores franceses. São todos uma merda."
"Não leio FC estrangeira. Só leio a que foi escrita em língua portuguesa."
"Não leio em Inglês. O Inglês é uma língua ilógica."
"Não publico terror porque tenho medo."
"Não compro esse livro, porque não gosto do tema."
"Não leio Stephen King porque ele imita o Steinbeck."
"Não leio contos porque os contos são muito pequenos e não valem o dinheiro que pago por eles."
"Não leio Dan Simmons porque ele faz-me vomitar."
"Não leio FC porque só trata de coisas esquisitas."
"Não leio FC porque é uma literatura anti-humanista."
"Não leio FC porque não tem nada a ver com a realidade."
 
Os exemplos acima citados conduzem ou não ao tal princípio nazificador de que ainda há pouco falávamos? Recusar-se a ler um livro escrito por uma mulher? Dizer que a língua inglesa, base de todos os sistemas informáticos é "ilógica"? Recusar-se a publicar um livro porque é de terror e, se eu não gosto disso ninguém há-de gostar? Dizer-se que se gosta de FC e depois não a ler porque não é do nosso país? Não ler um livro porque não se gosta do "tema"? E então o autor? Não conta para nada?
A nazificação pretende levantar um género acima de todos os outros. Uma figura como sendo melhor do que qualquer outra. Um produto de um cromossoma X a uma negação universal. A nazificação implica um estreitamento da visão. Uma esclerose conceptual. E uma perda dolorosa. O problema é que custa muito pouco "nazificarmo-nos". E uma vez nazificados, assim ficamos até o fim dos nossos dias.
E daí ao que nos conta o Dan Simmons vai apenas um passo. Ele assim o disse numa entrevista recente, e o que disse é assustador.
Disse que o seu Carrion Confort gerou mais de 600.000 cópias.
Que o seu Hyperion gerou mais de 600.000 cópias.
Sendo o Carrion um livro de Terror e o Hyperion um Space Opera haverá ligação entre os dois? Ou seja, será que o vulgar leitor do Dan Simmons (um leitor culto e exigente pois os seus livros não são "fáceis") comprou os dois livros pertencentes a "géneros" diferentes?
Tudo levaria a crer que sim. Quem gosta de um autor lê tudo o que ele escreveu, não é?
Nope.
Nada poderia estar mais longe da verdade.
Recentemente alguém me disse que não ia comprar os Extremos do Priest porque o tema não lhe interessava. Se não gostasse do autor em causa eu entendia. Mas o "tema"? Com mil raios, quando se gosta de um autor tenta-se ler tudo o que ele escreveu. Ou não?
Não, de facto.
A nazificação impera, secreta e fria.
Voltando ao Simmons: quantos destes 600.000 compradores compraram os dois livros?
E o Simmons responde: apenas dez.
Dez leitores em 600.000 conhecem as duas vertentes da obra do Simmons?
É verdade. Assustador, não acham?
Como se quem lesse Fantástico nunca lesse FC. E vice versa. Nem mesmo os livros de um único autor.
Estou assustado. Isto não quer dizer nada de bom. É uma descoberta terrível. Mas prova em absoluto que apenas uma pequeniníssima percentagem de trecos alguma vez lerá outra coisa senão trequismos.
Daí a anunciada morte da FC.
Pela nazificação dos afectos.

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João Barreiros escreveu:

 

A Verdadeira Invasão dos Marcianos

Editorial Presença

colecção Viajantes no Tempo

2004

Terrarium

com Luís Filipe Silva

Editorial Caminho

colecção Caminho Ficção Científica

1996

(leia a crítica de Jorge Candeias)

O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias

Editorial Caminho

colecção Caminho Ficção Científica

1994

(leia a crítica de Jorge Candeias)

Duas Fábulas Tecnocráticas

edição do autor

1977

(leia a crítica de Jorge Candeias)

Uma Noite na Periferia do Império

Prefácio a

O Planeta das Traseiras

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