R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

Criando a INTEMPOL

ou "Deus Does Not Exist" ou "Brincando nos Campos do Senhor"

por Octávio Aragão

artigo publicado em 27.09.2001

republicado em 05.06.2003

1 - NOS RECÔNDITOS INSONDÁVEIS DO TEMPO

Há algo que sempre foi uma característica da minha personalidade: gosto de fazer coisas em grupo.
Lembro que assim que entrei para a Escola de Belas Artes, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, cismei que a turma inteira deveria fazer uma "graphic novel" em conjunto, com cada um de nós, futuros artistas, trabalhando uma visão particular sobre um mesmo personagem. Não foi adiante por vários motivos, mas os esboços e esquetes resultantes do projeto incendiaram minha imaginação...
Depois foi a fase do rock 'n roll. Nada é mais "grupal" que uma banda de rock! Quatro ou cinco pessoas juntas compondo um produto único que não teria aquela forma não fosse pela junção das cabeças. Fiquei nisso durante quatro anos, fascinado pelas canções, pelos ensaios, eventuais shows e pelo processo como um todo. O único senão é que uma banda tem todos os problemas de um casamento e nenhuma das vantagens. Lidar com cinco egos desmesurados durante semanas a fio, sem descanso, é um exercício de paciência digno de um monge budista!
Chega 1998. Mais uma Copa do Mundo de futebol e, para minha surpresa, surge o convite para escrever um conto de ficção científica que misture os temas - o esportivo e o ficcional - para possível publicação numa antologia.
Não me perguntem como consegui. Até hoje não sei, mas o fato é que, cinco dias depois, eu tinha escrito Eu Matei Paolo Rossi, propus aos editores da Ano-Luz e fui aprovado. Não, não só isso... na verdade, todo mundo se perguntou de onde eu tinha vindo, quem era eu, um cara de quem ninguém tinha ouvido falar na pequena mas atuante comunidade de ficção científica brasileira. O conto - na verdade, uma noveleta, como vim a saber depois - versava sobre um dos grandes traumas futebolísticos da minha geração: a derrota para a seleção da Itália em 1982, quando um grupo genial de jogadores brasileiros foi eliminado de uma competição considerada ganha por todos os críticos internacionais.
Para entender como esse fato foi chocante, é necessário ter certa familiaridade com o espírito dos brasileiros... um país de dimensões continentais e pobreza maior ainda acaba se prendendo a pequenas coisas para não enlouquecer coletivamente. O futebol é uma delas. Talvez a principal.
Quando o time de um brasileiro perde o campeonato o fato ganha dimensões de tragédia grega e se o time em questão é a Seleção Nacional, o drama é escalonado a proporções cósmicas.
Nada mais "ficção científica", então. Lembrei-me do dia da derrota e construí uma trama "mezzo-policialesca" onde o protagonista descobre um plano envolvendo contrabando temporal e alteração de uma realidade em que, obviamente, o Brasil ganhou o jogo. Lá pelas tantas, no meio da narrativa, surge a tradicional "polícia do tempo", agentes infiltrados que buscam "consertar as coisas". E aqui é que a tradicional porca torce o rabo...
A polícia temporal existente nessa história não era a mesma, certinha, careta, que nos acostumamos a ver na ficção anglo-saxã, mas muito mais próxima de nós, corrupta, burocrática, malandra, canalha e muito desorganizada. Nascia a Intempol, com seus agentes de preto, suas caixas registradoras de deslocamento temporal individual, seus cartões cronais falsificáveis e a prisão atemporal, onde os meliantes eram devidamente detidos para sempre. Comecei a receber convites para escrever mais histórias passadas no universo da Intempol e, mais uma vez, o velho hábito se manifestou.
Por que apenas eu escreveria as histórias? Por que não abrir o jogo para um grupo de autores? A resposta dos colegas escritores foi um enfático "Ôba!"

2 - O PROJETO

Passo número um: abri uma lista de discussão sobre a Intempol na Internet, a intempol2@yahoogroups.com e lá, pouco a pouco, todos os interessados, leitores ou autores, acabaram se reunindo para discutir seus contos dentro do universo. O passo seguinte, simultaneamente à chegada dos contos (o primeiro foi O Furacão Marilyn, de Jorge Nunes, seguido de perto por Osmarco Valladão e seu The Long Yesterday), foi de ordem prática. Eu pretendia fazer um livro, não é? Mas não tinha dinheiro para tanto na época e ocorreu-me que a Intempol poderia se tornar algo um pouco maior que apenas um livro. Como então buscar dinheiro para tirar as idéias do papel, literalmente, e dar forma a elas?
Em 1999 contactei Rafael Peixoto, experiente em aprovar projetos de cunho cultural junto ao Governo. Não deu outra: Rafael adorou e injetou mais elementos à minha idéia original. Montámos um projeto que incluia, além de uma antologia literária, um game para computadores e um site na Internet e lá fui eu orçar tais produtos dos quais não fazia idéia de como seriam produzidos. Foi nessa busca que encontrei Antônio Callado e a Animagraph.
Aqui é necessário um parêntese. Eu não fazia idéia da resistência que os fãs "puristas" da ficção científica faziam à mudança midiática de seu objeto de culto. Pessoalmente, tenho a mesma curiosidade diante de um livro ou um filme e, até por uma "deformação profissional", dou muita importância à característica "visual" de uma obra. Qual não foi minha surpresa ao defrontar com o quase total desinteresse, da parte das pessoas que elogiaram Eu Matei Paolo Rossi, quando falei a respeito das características mais amplas do projeto... não deram a menor bola! E eu ali, achando que estava fazendo algo radicalmente diferente e inusitado dentro dos parâmetros da FC brasileira! Eu falava dos cenários do jogo e me perguntavam "Quando sai o livro?"... Discorria sobre os esboços de personagens a serem transformados em animação e me perguntavam "Tá, mas QUANDO SAI O LIVRO?"
Muito bem, pensei. Querem o livro? Então, certo! Pra mim, o livro era importante como mais um elemento do projeto como um todo mas, se o público queria assim, que fosse!

3 - INTEMPOL: UMA ANTOLOGIA DE CONTOS SOBRE VIAGENS NO TEMPO

Em Novembro de 2000 o livro foi lançado numa festa que durou um dia inteiro (das três da tarde às três da manhã) na Casa da Matriz, no Rio, uma casa de festas badalada na época. A capa do livro é, por si só, um capítulo à parte. O logotipo da Intempol e o símbolo (um relógio estilizado) são de Osmarco Valladão, experiente designer, enquanto as fotos foram produzidas especificamente seguindo meu layout por Marcelo Correa, fotógrafo de moda, e eu mesmo montei a arte final. Meu objetivo era fugir do amadorismo de 99,9% das capas de livros da FC brasileira, criando um clima "cinematográfico" onde se notam influências da iconografia de James Bond, Missão Impossível e Charlie's Angels. Por que não utilizar os ícones tradicionais da FC? Simples! No Brasil, FC é considerada Star Wars e Star Trek e eu preferia ver o livro relacionado com techno thriller que com isso. Afinal, comercialmente, Tom Clancy vende melhor que Poul Anderson. O resultado foi satisfatório: a capa é um baita cartão de visitas do livro e funciona perfeitamente até quando transformada em cartaz de ponto de venda.
Para distribuir o livro, tive o apoio da Editora Devir e utilizei meus contatos em gibiterias e lojas de RPG. Mais uma bola dentro! E dessa vez, gol duplo... não só um outro público potencial foi atingido - os leitores de RPG - como a própria Devir, especializada nesse tipo de material, me propôs escrever uma versão em jogo para o Intempol. Claro que eu topei! Convidei Fábio Fernandes e, a quatro mãos, começamos a alinhavar o GURPS-INTEMPOL, que será lançado em maio de 2002.
A abertura escrita pelo renomado jornalista Arthur Dapieve abriu-nos outras portas e o livro acabou sendo resenhado positivamente em vários veículos da imprensa (nos jornais Valor e Estado de São Paulo e nas revistas Quark, Sci-Fi News e Sci-Fi Cinema). O aparecimento nas páginas da Sci-Fi News catapultou o livro e passei a receber muitos e-mails de pessoas de várias partes do Brasil que não tinham idéia que se escrevia FC no Brasil. Passei o ano 2001 cuidando do livro em si e tratando dos outros lados do projeto...

4 - O DESENHO ANIMADO

É necessário dizer que, com a inestimável ajuda do Rafael Peixoto, conseguimos aprovar o Projeto Intempol dentro à Lei Rouanet de Incentivo a Projetos Culturais, que facilita aos patrocinadores debitarem o valor de seus investimentos financeiros do Imposto de Renda. Isso realmente foi um achado que conferiu um certo "status" à Intempol e, enquanto eu cuidava do livro, Antônio Callado e sua empresa, Animagraph, desenvolviam cenários e estruturas para o game. Porém, apesar do aval do Governo, procuramos por todo lado formas de patrocínio para a empreitada, mas foi impossível descobrir uma empresa interessada em bancar o jogo. Como então aproveitar o que já tinha sido feito em termos de computação gráfica e efeitos especiais e mostrar para um público razoável que o projeto seria viável?
A saída veio na forma do festival internacional de animação Anima Mundi, sediado no Rio e um dos cinco maiores festivais do planeta. O game virou um desenho animado! Preparei um novo roteiro que aproveitasse os cenários existentes e, a essa altura, pretendemos concorrer no festival em meados de 2002, lançando simultaneamente o RPG pela Devir.
O título do desenho é INTEMPOL: Rei do Mundo Ao Lado, e contará a história de um jovem contrabandista que faz fortuna traficando desde gasolina até componentes de computador do futuro para o passado e vice-versa, criando no processo vários Universos Paralelos. Alguns dos cenários que servirão de base tanto para o desenho quanto para o esperado game podem ser acessados no site do projeto Intempol, www.intempol.com.br, e uma entrevista na revista Veja nos colocou lado-a-lado com os pioneiros dos games brasileiros.

5 - OS FINALMENTES

2001 tem sido o ano das primeiras colheitas. O Projeto Intempol como um todo ganhou o Prêmio da Sociedade Brasileira de Arte Fantástica, que não vinha sendo distribuído desde 1997, e foi indicado para as categorias "melhor ficção" e "melhor publicação" do Prêmio Argos, bancado pelo Clube de Leitores de Ficção Científica. É interessante notar que, dos dez contos presentes na antologia, cinco estão concorrendo em igualdade de condições (são eles Eu Matei Paolo Rossi; e Um Museu de Velhas Novidades, de minha autoria; o já citado The Long Yesterday; A Mortífera Maldição da Múmia, de Carlos Orsi Martinho; Saviana, de Jorge Nunes; e aquele considerado por muitos como o melhor conto da série, A Vingança da Ampulheta, de Fábio Fernandes. É importante notar que Ampulheta já deu origem a uma espécie de continuação, A Revanche da Ampulheta, do mesmo autor, lançado em 2001 pela Editora Ano Luz, dentro da coleção Terra Incógnita. Trata-se da primeira publicação decorrente à série Intempol).
O futuro, porém, está prenhe de novidades... dando continuidade à tradição de dar apoio a autores novos dentro do ambiente recorrente do fandom de FC brasileira (os primeiros foram Hidemberg Frota, autor de Nosso Destino, conto da Intempol publicado na antologia portuguesa A Viagem; Jorge Nunes, Osmarco Valladão e Paulo Elache, com Uma Questão de Ponto de Vista), posso adiantar que outros criadores estarão fazendo parte da trupe intemporal: até agora já li boas novas histórias produzidas por Alexandre Mandarino e Roberval Barcellos, que fez sua estréia literária com a novela Primeiro de Abril, na antologia Phantastica Brasiliana, enquanto Carla Cristina Pereira, premiada autora de Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança já demonstrou publicamente vontade de produzir algo para a série.
Isso apenas no quadro literário, pois no que toca aos outros vértices do projeto, as coisas já andam quase de forma independente, como o caso da graphic novel Um Museu de Velhas Novidades, baseada no conto de minha autoria e desenhada por Claudio Bernard, um excelente artista gráfico e ilustrador, ou do RPG em si, cujo texto já está sendo finalizado. Terminando, posso dizer que, se ainda não fiquei rico graças à Intempol, ao menos tenho a satisfação de ter realizado um sonho de adolescência: criar oficialmente o primeiro shared universe da literatura fantástica brasileira. O resto, virá com o tempo...

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Livros da Intempol:

 

Intempol

organizado por Octávio Aragão

Ano-Luz (Brasil)

2000

(leia a crítica de Marcello Simão Branco)

(leia a crítica de Jorge Candeias)

A Revanche da Ampulheta

Fábio Fernandes

Ano-Luz (Brasil)

2001

Artigos de Octávio Aragão

Críticas de Octávio Aragão

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