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Ficção Científica Venezuelana: História e Pré-História

por Jorge De Abreu

tradução de Jorge Candeias

artigo publicado em 25.06.2005

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O início desta mudança na FC venezuelana, a passagem da pré-história ao período histórico, ocorreu em inícios dos anos oitenta, quando um par de estudantes de física da Universidade Simón Bolívar (USB) conceberam a criação de uma associação de fãs de FC. César Villanueva (1963) e José Ramón Morales (1963) já tinham organizado os dois primeiros concursos literários de FC na USB, e como estavam imersos na organização dos concursos esbarraram com dois factos que os iluminaram: a) não eram os únicos fãs do género na USB, pelo contrário, havia uma multidão deles (obviamente sob o ponto de vista de quem se acreditava sozinho), e b) souberam da existência de uma Coordenação dependente da Direcção de Desenvolvimento Estudantil da universidade, que apoiava a criação e funcionamento de organizações estudantis. A convocatória para a formação de um grupo de FC teve lugar no princípio de 1984 e, como resultado das reuniões realizadas quarta-feira após quarta-feira na antiga sala de estudantes de física (chamado pelas más-línguas COF: Centro de Ociosos de Física), a 24 de Maio de 1984 é oficialmente inaugurado o UBIK, Clube de FC da USB. Aquele grupo fundador incluía, além de Villanueva e Morales, Imre Mikoss, Yamil Madi, Víctor Pineda e Jorge De Abreu. De forma independente, durante esse mesmo ano teve lugar outra convocatória na Universidade Central da Venezuela com o mesmo fim de constituir um agrupamento de FC; no entanto, essa iniciativa aparentemente caiu no vazio e não prosperou.
Em 1986, o UBIK começa a editar a Cygnus, a primeira revista conhecida de FC venezuelana. Foram publicados cinco números da Cygnus ao longo de oito anos. Nas páginas da Cygnus apareceram pela primeira vez os contos de muitos dos escritores dessa nova geração da FC.
Para acabar de completar o círculo, em Julho de 1991 Darío Álvarez, Ingrid Kreksch, Francesco Pellegrini, Gonzalo Vélez e outros, criam a ALFA (Asociación Libre de Ficción Anticipatoria), a segunda associação venezuelana de FC, que a partir de 1993 começa a publicar a revista Solaris, da qual lamentavelmente só editam um número. Em 1994, Darío Álvarez em representação da ALFA e com a colaboração da Fundação REACCIUN (Red Académica de Cooperación, Comunicación e Intercambio entre Universidades Nacionales) da Venezuela cria a lista de correio ALFA-L, a primeira dedicada ao género na Venezuela e uma das mais antigas da América hispânica.
Paralelamente, em finais desse mesmo ano, a UBIK põe online a sua BBS. E assim, em 1994, os fãs de FC de toda a Venezuela podiam por fim intercambiar opiniões e organizar actividades de forma eficiente, apesar das limitações de uma tecnologia que não estava amplamente distribuída. Na BBS da UBIK gerou-se principalmente entre 1996 e 1997 o projecto literário Historia Universal que conseguiu juntar vários autores venezuelanos (Yván Ecarri, Miguel Ángel González, César Lezama e William Trabacilo, entre outros) e mais de vinte contos. A UBIK BBS cessou a sua actividade em 1998 devido à morte súbita do computador que a alojava e à presença já dominante da world wide web. De facto, em 1997 (a 10 de Janeiro) inaugura-se a página web da recém-constituída Asociación Venezolana de Ciencia Ficción como uma extensão natural do UBIK universitário.
Em 1996, Alirio e Daniel Gavidia (Alirio era um velho conhecido da UBIK, pois tinha participado em vários concursos literários) começam a editar a revista electrónica Koinos: A revista publicou durante os seus quatro números de existência (até ao ano 2000) vários contos de FC.
O escritor Jorge Gómez Jiménez (1971), editor da revista Letralia, compromete-se com o género em 2000 ao publicar, através da sua editora digital Letralia, a antologia de contos 2000: El Futuro Presente, que reuniu vários autores de FC da América Latina. O próprio Gómez Jiménez, que escreveu vários contos de FC, contribuiu com El eco de Frankenstein, uma fantasia sexual cyberpunk, que fez parte dessa antologia.
Durante os 19 anos que passaram desde o surgimento do primeiro número de Cygnus, a nova FC venezuelana produziu autores e obras interessantes e muito mais comprometidas com o género do que tinham sido a literatura e escritores precedentes. Muitos autores se deram a conhecer desde então, alguns mantêm-se com persistência, outros talvez desfrutem de um longo recesso com a esperança de voltar à carga quando o clima melhore. É este último o caso de Ermanno Fiorucci (1938), que escreveu contos como Precisión, equilibrio y perfección (1988), conto humorístico sobre o encontro imediato entre um terrestre demasiado pedante e um OVNI e, recentemente, Belleza ante todo (2003), ¿Morir por…? (2003) e Silencio ruidoso (2004).
César Lezama, tragicamente falecido em 1998, segundo classificado do IX Concurso Literário de UBIK com Pequeña señorita nadie, legou-nos a sua prosa vibrante em histórias cheias de intriga dos contos que compõem as Crónicas de la Gran Familia. Outro participante do concurso, Alfonso Linares (vencedor na VII edição com Quo Vadis?, publicado em Axxón n° 34, 1992) mostra-nos que a rota terrestre está já semeada nos rancores do passado (Los Ecos del Pasado, 1994).
Outros autores incluem César Villanueva (Ecce homo, 1986), Federico Bethencourt (Estancia vespertina, 1988), Rafael Escalona (Relato 3, 1988; Escrito MCMLXXXV, 1990), Yván Ecarri (El Piso Sucio, 1994), Yamil Madi (Golpes en la escotilla, 2005), Juan Carlos Aguilar (Realidad, 1987) e William Trabacilo (os contos de Las Crónicas de Oxerai, 1996 - 1998 e o conto vencedor do XIII Concurso Literário de UBIK Quítame la vida, pero cuídala). Juan Carlos Aguilar também escreveu vários artigos relatando as suas peripécias no mundo das convenções anglo-saxónicas de FC, um dos seus amores no género. O outro, poucos desconhecem: a obra de Isaac Asimov, à qual também dedicou parte da sua inspiração.
Recentemente surgiu Vladimir Vásquez com uma antologia publicada pela Alfa Eridiani (Universos Internos, 2004). Desde o estado de Táchira escrevem autores como Eduardo Rodríguez com uma obra de teatro para marionetas (Los Viajes Ecogalácticos) e José Antonio Pulido (1975) com Hombres de Luz (Teatro). Por fim, Jorge De Abreu (1963), um autor que conheço bastante bem, dedicou-se ao ofício literário com altos e baixos de fúria criadora durante todo este período. São seus os contos Trina (1986), Conversación privada (1987) e recentemente Confesiones de un ebrio (Axxón n° 142, 2004) e Un dulce aroma a flores ultravioleta em Eridano n° 8 (2004), entre outros.
Em 2001, com o despertar do novo século, um grupo de estudantes da Universidade de Carabobo (UC) da cidade de Valencia, começa a editar a Nostromo, uma revista em papel dedicada primordialmente à publicação de ensaios de FC e fantasia. A responsabilidade editorial recai principalmente em Ramón Siverio, um estudante de engenharia eléctrica da UC. A Nostromo já publicou seis números e tem maquetado o sétimo mas espera ainda recursos para a sua publicação. Sempre o sujo dinheiro a dar a cara para estragar as coisas.
Em Outubro de 2003 o Star Wars Fan Club Venezuela organizou a primeira Convenção Latino-Americana de fanáticos de Star Wars, ao passo que o Star Trek Club Venezuela tem programada para meados de 2005 a primeira Expotrek. Ambos os clubes se dedicam a actividades de promoção e discussão, entre os fanáticos, de temas pertinentes às respectivas produções audiovisuais.
Em 2002, Jorge De Abreu retoma a edição de Desde el Lado Obscuro (original de 1998 sob orientação de Juan C. Aguilar), publicação destinada a divulgar e comentar notícias e artigos sobre o mundo da FC e, em 2004, Ubikverso e a segunda época do Necronomicón, publicações periódicas dedicadas à ficção de FC, fantasia e terror.
 
A FC venezuelana encontra-se em incubação desde há duas décadas. O reconhecimento do género pelos novos autores e a formação de um grupo que em maior ou menor medida maneja os mesmos códigos permitem alimentar a esperança de que algo pode eclodir se as condições do meio ambiente melhorarem. A extrema aridez do clima editorial e uma economia erodida depois de quase trinta anos de desatinos políticos e vinte de debacle económica são os principais inimigos de uma FC saudável… entretanto, os organismos medram e esperam pela formação de um nicho, uma abertura que lhes permita competir pela luz… e neste negócio a luz é inimiga da entropia.

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