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FC Portuguesa — Literatura Filha de Pais Incógnitos

por Jorge Candeias

artigo publicado em 24.04.2005

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Tanto mais que outros autores surgiam com livros situados na parte mais fantástica das leituras de género: António de Macedo (O Limite de Rutzky (1992), Contos do Androthélys (1993), Sulphira & Lucyphur (1995)), Daniel Tércio (O Demónio de Maxwell (1993)), Maria de Menezes (Três Histórias com Final Feliz (1993)), etc. Foi também em 1993 que se resolveu fazer um apanhado geral do que se estava a produzir no momento em termos de FC nos dois principais países de língua portuguesa, com a antologia O Atlântico tem Duas Margens, organizada por José Manuel Morais, e que reunia uma série de nomes que eram então assíduos no fanzine brasileiro Somnium. Até mesmo Saramago se voltou a aproximar bastante da ficção científica em 1995, com o fenomenal Ensaio Sobre a Cegueira, depois de ter passado a década e meia anterior a produzir livros em que o elemento fantástico preponderava.
Pareciam estar criadas as condições para institucionalizar um grupo de fãs e produtores de FC, e, à semelhança do que já acontecia nos outros países com uma literatura de ficção científica estabelecida, promover uma convenção em que autores e fãs se pudessem encontrar. Foi o que aconteceu em 1996, em Cascais, com os "1os. Encontros Na Periferia do Império", dos quais nasceria no ano seguinte a associação Simetria, e que editorialmente resultaram numa antologia que reuniria a fina-flor dos escritores activos na época.
Paradoxalmente, 1996 marca o início de uma enorme decadência na produção de ficção científica em Portugal. Depois da publicação, em 1996, de Terrarium, escrito a quatro mãos por Luís Filipe Silva e por João Barreiros, e por muitos considerado o melhor livro de ficção científica já escrito em português, e também do livro póstumo de João Botelho da Silva, As Horas do Declínio (que nem sempre é FC), a edição de FC portuguesa na Caminho volta aos níveis registados nos anos 80, de novo com os autores a derivar para os caminhos do fantástico e pouca verdadeira ficção científica a sair. Além disso, poucos anos antes Portugal tinha praticamente ficado sem mercados de ficção curta, com o fim da Omnia e dos poucos fanzines e revistas que resistiram até aos anos 90.
É nesta fase que se abrem as portas aos escritores brasileiros, com Gerson Lodi-Ribeiro a editar dois livros de contos e Bráulio Tavares e Roberto de Sousa Causo um cada (ambos mais de Fantástico que de FC). Destaque, de qualquer modo, para 1998, ano em que saem dois romances: EuroNovela, de Miguel Vale de Almeida (uma ficção política) e Pedra de Lúcifer de Daniel Tércio, romance que é o mais FC de todos os livros deste autor (se bem que permaneça mais próximo de outros registos como os universos alternativos e o misticismo).
Ao mesmo tempo que o grupo dos autores da Caminho se institucionaliza em torno da Simetria e das suas colectâneas anuais, cuja qualidade desce de ano para ano, surge fora dos mercados habituais para a FC portuguesa um conjunto de livros de autores que, na maioria, ninguém conhece e não conhecem ninguém. Alguns são de ficção científica, outros passeiam-se pelo fantástico ou pela história alternativa, outros misturam os géneros com o mainstream. É o caso, por exemplo, de João de Mancelos que edita em 99 uma colectânea de contos, de novo na Vega, com muito maior qualidade que o seu primeiro livro, ou de António Bettencourt Viana que edita, também em 99, O Enigma de Titã na editora Nova Arrancada.
Estes forasteiros têm, no entanto, um impacto quase nulo na FC portuguesa. Por falta de visibilidade, visto as edições não serem fáceis de encontrar devido às tiragens reduzidas e fraca distribuição, e também porque por vezes os livros são editados fora das colecções de FC e não vêm identificados como FC, o que ajuda a passarem despercebidos aos leitores habituais do género. Isto também acontece, aliás, na própria Caminho, que resolve tirar da colecção de FC alguns livros de escritores ligados ao género, casos de António de Macedo e do brasileiro Bráulio Tavares.
Chegou-se assim ao mítico ano 2000: com um mercado caótico e desorganizado, uma ausência quase total de contacto entre os escritores e o seu público e entre escritores e escritores, e um regresso parcial à situação de semi-clandestinidade de antes do aparecimento das edições da Caminho.

FC portuguesa no século XXI — internet?

O novo século praticamente inicia-se com o fim da colecção de FC da Caminho. Simultaneamente, desaparece também o prémio Caminho, grande veículo de divulgação de novas vozes. Com a publicação de Quatro Andamentos, de Luís Richheimer de Sequeira, a editora acaba com a edição de FC portuguesa, pelo menos em colecção própria, deixando por publicar duas obras recomendadas pelo júri do prémio: Eu Clone, de João Seixas, recomendado em 97, e A Diferença da Máquina, do brasileiro Daniel Malagum, recomendado em 99.
Apesar de continuarem a surgir, aqui e ali, obras de FC portuguesa, dispersas por várias editoras e raramente incluídas em colecções de género, a edição de FC em livro, em geral, tem decrescido neste início do século XXI. O panorama parece negro.
Mas se olharmos para trás, verifica-se que a época em que a FC neste país mais frutificou seguiu de poucos anos a época em que existia um mercado aberto à edição de ficção curta no género, que escoava uma produção anual razoável de contos e dava a conhecer novos autores. Poucos anos depois de as revistas acabarem, o Diário de Notícias esconder na Internet o seu DN Jovem e os fanzines deixarem de sair, começou o declínio. Parece que a existência de um mercado de ficção curta é um pré-requisito para que apareçam livros com alguma qualidade.
Hoje pode dizer-se que a ficção curta migrou para a internet. Seguindo o caminho delineado pelo site Contos Portugueses de Arrepiar, que apesar de arrepiar fundamentalmente pela nula qualidade do que publicava, foi pioneiro na edição web em Portugal, seguindo também o caminho do próprio DN Jovem e aproveitando a subida importante no número de cibernautas em Portugal nos últimos anos, vários sites foram surgindo, e é através deles que se tem vindo a editar boa parte da FC portuguesa mais recente. Hoje em dia já se pode dizer que existe de novo um mercado consistente para a FC curta em Portugal. Em sites como o da Simetria, Eventos, E-nigma, Hyperdrive, Turno da Noite e Alface Voadora, entre outros, podem encontrar-se quer trabalhos de autores consagrados, quer trabalhos de jovens talentos em desenvolvimento.
É, portanto, de esperar que surja de novo uma produção razoável de FC em Portugal, com uma qualidade mais apurada, capaz de alimentar a edição tradicional. O que falta agora é uma casa acolhedora, uma editora que faça o que a Caminho fez ao longo das décadas de 80 e 90. A alternativa é dispersar a produção por uma série de sítios como tem acontecido nos últimos anos.
Mas que tem de mal a dispersão? Nada, se as pessoas tiverem consciência umas das outras, isto é, se os leitores souberem que o seu escritor favorito publica na casa X mas que há outro tão bom, ou quase, na Y, se os escritores se conhecerem uns aos outros, se lerem uns aos outros, se deixarem influenciar uns pelos outros. Mas se nada disto acontecer, como não tem acontecido nos últimos tempos, a dispersão só enfraquece o género.

A FC portuguesa em busca de pais

Em todos os países do mundo onde existe uma literatura de ficção científica estabelecida, os autores contemporâneos conhecem-se bem, leram e respeitam os que vieram antes deles, valorizam a sua tradição no género. Em Portugal não. Entre nós, a geração de 60-70 é hoje quase totalmente desconhecida, muitos dos que escrevem actualmente nunca sequer ouviram falar dos que publicaram nos anos 80 ou até nos 90 e nem lêem o que se publica hoje. Escreve-se ou com base apenas nas influências da FC anglo-saxónica, ou com base apenas na literatura mainstream portuguesa, ou então, o que é pior ainda, com base em referências provenientes da TV e do cinema. Em França, Júlio Verne é reverenciado; em Portugal, Melo de Matos é ignorado.
Como consequência, ou não há quase nada de português na FC que se faz em Portugal, porque o desconhecimento das gerações anteriores causa a ausência de uma continuidade indispensável para o aparecimento de uma voz própria da FC de um país, ou não há quase FC nenhuma naquilo que se pretende fazer passar por tal, porque quem só lê mainstream é totalmente ignorante dos protocolos específicos do género FC.
Mas também aqui se assiste a mudança. Parte da geração que escreve actualmente cresceu enquanto leitora com os livros de João Barreiros e Luís Filipe Silva, Bráulio Tavares e Gerson Lodi-Ribeiro. Pela primeira vez, há referências nacionais que não se esgotam num único autor e que em vez disso influenciam vários. E há quem contrabalance isso com a leitura dos nossos melhores escritores mainstream, contemporâneos ou não.
Por isso, pode ser que seja desta que a FC portuguesa encontra os seus pais.

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(leia a crítica de Octávio Aragão)

 

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