R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

À Boleia Pela Ficção Científica Francesa

por Jean-Claude Dunyach

tradução de Jorge Candeias

artigo publicado em 08.08.2003

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A situação permaneceu mais ou menos na mesma até 1995, ano em que três revistas de FC foram lançadas quase ao mesmo tempo. A primeira foi a CyberDreams, que pretendia ser o equivalente francês da Interzone. Desempenhou um papel importante na apresentação da nova geração de autores britânicos e na publicação de várias histórias francesas.
A CyberDreams foi rapidamente seguida pela Bifrost e pela Galaxies, que saíram no mesmo mês e contribuíram para abrir algum espaço aos novos autores. Cada revista publicou cerca de 30 números até hoje.
Entretanto, saíram duas antologias de contos franceses editadas por autores franceses famosos: Genèses, em 1996, editada por Ayerdhal com a grande editora J'ai Lu, e Escales sur l'Horizon, editada por Serge Lehman em 1998 (seguida no verão de 2001 por Escales 2000, da qual me encarreguei eu, e por Escales 2001, que foi lançada no ano passado.).
Escales sur l'Horizon é um livro gigantesco com 16 contos e novelas de autores franceses e canadianos. Contém também um prefácio muito importante de Serge Lehman, que pode ser encarado como o “manifesto da FC francesa” do final do século. Estas duas antologias foram bem recebidas pelo público — ambas ganharam prémios — e agora a imprensa refere-se-nos como os novos “rapazes-maravilha da FC francesa”. Não se riam!
De facto, mesmo que a situação esteja a melhorar — cada uma das editoras francesas principais está a criar ou a reformular a sua própria colecção de FC / Fantasia / Gótico e o público parece interessar-se pelo que o futuro lhe trará (provavelmente um efeito do novo milénio) — a única forma de a FC francesa sobreviver é atravessando fronteiras e encontrando leitores fora da Europa.
E então, regressámos ao espaço — o local onde tudo começou.
Um bom exemplo dos autores dessa tendência é Laurent Genefort. Pertence ao nosso grupo de “rapazes-maravilha” (tem trinta anos, mas tem quase tantos livros publicados como os anos que tem de vida) e é famoso pela sua criação de ambientes alienígenas e de planetas estranhos. Escreveu uma série de romances independentes ambientados na galáxia, mas numa galáxia que foi povoada outrora por uma raça muito antiga chamada “Vangk”. Os Vangk desapareceram, mas deixaram atrás de si uma fantástica colecção de artefactos — desde portais que permitem viajar até estrelas distantes até um planeta inteiro transformado numa esfera de Dyson, para onde foram transferidos em massa humanos e outras criaturas a fim de executar uma experiência qualquer. Eis algo que também se pode encontrar em livros de outros europeus — lembramo-nos de Alaister Reynolds e do seu Revelation Space, ou de Juan Miguel Aguilera.
Mas mesmo que muitos autores franceses estejam bem conscientes dos ícones culturais e das tendências da ficção científica anglo-americana, os nossos livros têm um sabor próprio. E sugiro que provem também os nossos vinhos...

3) Temas franceses típicos: arte, carne e ironia

É algo difícil identificar a especificidade da FC francesa — assumindo que é específica, coisa que eu acredito que seja. O surrealismo foi provavelmente uma grande influência durante os anos 80, bem como o noveau roman e outras experiências literárias, mas isto tem a ver com a forma como escrevemos as nossas histórias, não com os seus temas. E aqui na Europa o surrealismo é tão “air du temps” — parte da paisagem — que é difícil não se ser influenciado por ele.
Penso que os dois temas principais da FC francesa desde o fim dos anos 70 são artistas e museus do futuro — a última antologia de autores franceses, publicada este mês, também explora esse tema — e a relação com o corpo — a carne encarada como território experimental.
A arte no futuro foi um tema central nos anos oitenta e está agora a fazer um regresso sério. É interessante notar que aquilo a que se chama arte no futuro é ou uma forma terrorista de mudar a sociedade — a arte como meio de mover as massas e de as controlar — ou a expressão última de liberdade em confronto com estados totalitários. Na colecção recém-lançada “Musées, des mondes énigmatiques” (Museus, mundos enigmáticos), a maior parte das histórias descrevem fugitivos do mundo exterior à procura de refúgio num museu. Alguns caem em armadilhas e são destruídos, ao passo que outros encontram auxílio de outros refugiados. Quase não há personagens interessadas na arte pela arte. Enquanto possível metáfora da FC francesa, isto é bastante assustador.
Quanto ao “território experimental da carne”, o tema está provavelmente ligado ao surrealismo — Dali, por exemplo, é famoso pela sua estátua da Vénus de Milo com gavetas. Uma vez que a ficção científica é frequentemente encarada como uma literatura da metamorfose, é natural a tendência de brincar com a ideia de reconstruir o corpo! É bom notar que esta reconstrução do corpo é frequentemente feita por motivos artísticos e sem recorrer a biotecnologias ou parafernálias científicas.
Devo acrescentar que a maioria dos escritores de FC franceses nem são cientistas — eu sou uma das poucas excepções — nem estão particularmente interessados em ciência (pelo menos na ciência dura).

4) Algumas trajectórias pessoais

Com excepção dos movimentos literários bem identificados mencionados acima, cujo impacto foi limitado, a FC francesa é composta primordialmente por individualistas, cujas trajectórias são bastante diferentes.
Serge Brussolo apareceu no princípio dos anos oitenta e começou a produzir quatro a cinco romances por ano num estilo muito surrealista. Tornou-se bastante popular e diversificou a sua produção para romances históricos e thrillers, usando vários pseudónimos. Nos seus livros, podemos encontrar gatos albinos vendidos com conjuntos de cores laváveis para que se possa pintá-los à vontade, oceanos substituídos por centenas de milhões de anões que vivem na lama, de mãos para cima, e transportam barcos em troca de comida. Claro que de vez em quando eles se reproduzem e então acontece uma onda de maré de anões que pretendem conquistar novos territórios. Mas os guardas costeiros estão equipados com metralhadoras...
Quanto aos anos noventa, há que mencionar:
Ayerdhal — um pseudónimo — é famoso principalmente pelas suas space operas políticas com intrigas complexas e personagens femininas interessantes. Serge Lehman, um estilista com um bom sentido do maravilhoso, começou o seu épico História do Futuro no início dos anos noventa. Pierre Bordage é o nosso especialista em grandes sagas e um autor de best-sellers desde a sua primeira trilogia. Richard Canal, que vive em África, tenta fundir o mainstream e a FC num futuro dominado por sociedades de cariz africano. Roland C. Wagner, que surgiu no início dos anos oitenta, encontra a sua inspiração no rock'n roll e em descrições humorísticas de sociedades extraterrestres — ele ganhou a maioria dos prémios franceses de FC de 1999.
E está a surgir uma nova geração de autores que fundem a FC, a fantasia e o steampunk: David Calvo — cujos livros se situam algures entre Peter Pan e a banda lunática —, Fabrice Colin, Laurent Kloetzer e muitos, muitos outros.

5) Recém-chegados provenientes do mainstream: osmose e imitação

Uma última tendência: a ficção científica parece tornar-se a pouco e pouco socialmente aceitável, pelo menos junto de alguns membros da comunidade de ficcionistas de mainstream. Durante os últimos três anos, foi publicada por grandes editoras uma mão-cheia de romances relacionados com FC, e alguns deles tiveram boas prestações nos tops! Um dos mais recentes — Les Particules Elémentaires (as partículas elementares), um romance de Michel Houellebecq — foi um sucesso enorme e também um escândalo enorme, em parte devido a cenas de sexo explícito. Mas a maioria dos jornalistas que o entrevistaram foram incapazes de compreender que o seu livro era ficção científica e ele foi obrigado a explicar-lhes a FC. Em detalhe.
Ainda bem que não o forçaram a fazer o mesmo com as cenas sexuais!

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