R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

Três Lágrimas Paralelas, a Capitalização do Abstracto Como Aspiração de Sentido

um ensaio crítico de João Seixas

publicada em 27.07.2002

republicada em 02.07.2003

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No entanto, o valor a que a narrativa poderia aspirar - pelo menos em confronto com a mediocridade dos textos que a acompanham - dissolve-se na, afinal, total falta de sentido.
É conhecido o axioma literário que nos diz que na ficção nada acontece por acaso, na realidade sim.
Para Portela tudo carece de sentido, sem que essa falta de sentido cumpra um qualquer objectivo literário. Limita-se a ser o texto, em vez de ser o motor invisível do texto. Neste sentido, estamos perante uma a-narrativa, um mero exercício de soma de palavras, um jogo solipsista.
Não existe um porquê para a escolha da alienígena. Um porquê para a escolha daquelas três figuras. Se elas podem servir de alguma forma como símbolos do génio humano, então aí questionar-nos-íamos sobre o porquê de só aqueles 'símbolos' e não de outros. Porquê dois das artes, um deles o seminal homem renascentista, instruído tanto nas artes como nas ciências, e um rei? Porque não um génio militar? Porque não Darwin ou Eisntein? Ou Warhol?
E porquê quando eles tinham já alcançado o auge da sua fama? O que levaria uma alienígena a 'saltar vinte galáxias' (p.162) apenas para embeiçar três génios terrestres? E porquê o ter deixado de fora as mais importantes figuras do Séc. XX?
O mais perturbante neste volume, porém, é que o autor verdadeiramente se leva a sério, sem levar a sério a ficção científica. Ele realmente acredita que cada um dos seus contos, cada uma das suas fábulas, tem um profundo sentido metafórico que, através da máscara literária de fantasias espaciais, lida com valores universais, ignorando, porém, que a ficção científica já há muito ultrapassou o estado larvar em que vegetam ainda os nossos autores de mainstream.
E, nesse sentido, é interessante notar que as únicas referências dentro do género que estes contos conseguiram invocar, pelo menos a este leitor, foram Asimov, Bradbury e Lewis. Autores que estiveram no seu auge nos anos 50-60, autores de receituário, marcos delimitadores à sua maneira, como rochas que num rio desviam o percurso das águas.
Portela é alheio a toda a FC que possa existir para além dos autores americanos do passado, aqueles que constituem o grosso do catálogo da Argonauta; para ele não existiu a New Wave, e quem o lê não pode acreditar que o Cyberpunk tinha já surgido e desaparecido pela sua dissolução no mainstream, ou que a ficção científica inglesa borbulhava num processo que a conduziria a um renascimento fulgurante nos anos 90.
Objecto ucrónico, 3LP situa-se fora de qualquer contínuo referencial, quer de texto quer de contexto, coagulando em si a essência da ficção científica portuguesa; ponto de referência temática e, ao mesmo tempo, local de necessária fuga para a maturação do género.
E é interessante observar como é a este nível que o livro de Portela se mostra mais relevante, assumindo, de forma involuntária, o papel de elemento acretor da temática cientifico-ficcional lusa, e da forma como essa temática se manifesta literariamente. Acima de tudo, congela no suporte das suas páginas, como supra se disse, o paradigma da ficção científica nacional.
Terminologia, anti-cientifismo, transcendência nacional e, acima de tudo, imobilismo, são elementos definidores desse paradigma que pode ser melhor delimitado se, trepanando a cobertura literária, retivermos o esqueleto estruturante, a anima que conduz este tipo de narrativa: Saudade, Regresso, Redenção, Bem, Democracia, são palavras que retive das notas de leitura que originaram o presente texto.
Assim, tal como se apresentam... em maiúsculas... capitalizadas.
Compare-se o mencionado "Corrida no Parque" com "Educação Sentimental", de Isabel Cristina Pires (in Universal Limitada, Caminho, 1987), contemporâneo da obra de Portela, e este, por sua vez, com o também já citado "Lenda" de Aniceto.
Tal como o conto de Portela, o conto de Isabel Cristina Pires é despido de qualquer outra dimensão que não seja a metafórica. Narrando a educação de uma criança humana - fria e indiferente perante um glorioso entardecer (e observe-se que Cristina Pires descreve "os engenheiros genéticos, na frieza das suas batas, dos seus corredores assépticos, da sua maquinaria misteriosa", em "O Andrógino" (op. cit., pág. 20-21) - por um andróide aparentemente imbuído de uma sensibilidade e sentimentalidade recomendadamente humana.
Isabel Cristina Pires, tal como Portela, diz-nos que as máquinas têm mais sentimentos que os humanos, ou que só elas os têm. Não nos diz como, nem porquê. E, deixando sem resposta as questões que interessam a uma narrativa de ficção científica, mais, que a definem, retém apenas a reafirmação dos valores arcaicos, judaico-cristãos.
O que nos traz de volta à natureza e evolução histórica da Ficção Científica como elemento indissociável de um contexto sociocultural determinado, paradigma conformador da (pós-)modernidade.
Porque a Ficção Científica apenas se afirmou no panorama literário quando o avanço científico oitocentista veio abalar as fundações históricas e cosmológicas das religiões judaico-cristãs, então dominantes na Europa, sem porém conseguir afirmar um conjunto de valores capazes de irem além da ética experimental da própria pesquisa científica.
E foi neste caldo cultural que a Ficção Científica afirmou a sua importância enquanto matriz na qual os valores implícitos no conhecimento científico podiam ser explorados e onde a informação sobre o mundo que a ciência acumulou podia ser contraposta a modelos de comportamento humanos (Scholes e Rabkin, Science Fiction - History, Science, Vision, 1977).
O mesmo é dizer, Wells e Stapledon transformaram a Ficção Científica num locus onde tais valores podiam ser apresentados de forma especulativa, testados e, só depois disso, afirmados.
E é nestes três passos que se define a natureza da Ficção Científica, bem como o seu papel histórico-literário: exploração especulativa dos valores (hipótese) - teste desses valores num mundo em mudança, ou noutros mundos, passados, futuros ou alternativos (experiência) - afirmação desses valores após o teste (conclusão).
Portela, Cristina Pires e Aniceto recusam este papel à ficção científica, assim a renegando, ao eliminarem os dois primeiros passos e se limitarem à afirmação dos valores não-testados. Nessa recusa da própria essência do género reafirmam a literatura tradicional pré-wellsiana e, sobretudo, retêm apenas o fantástico típico da Ficção Religiosa onde os valores, ao invés de produtos da experiência, são-no da Revelação.
E aqui se define a ficção científica portuguesa: assentando apenas em valores revelados, necessita de efectivar a capitalização desses valores. Em 3LP (como em Universal, limitada e A Lenda) existe apenas a Verdade, a Saudade, a Humanidade, o Amor, como nessa suprema negação da fc que é "Lenda" (e observe-se como Aniceto escolhe precisamente o conto que é menos científico-ficcional para dar título à colectânea).
Porque é na capitalização do abstracto que a FC portuguesa busca o sentido de que carece, uma vez renegada a essência definidora do género. Recusando-se a testar os valores - valores definidos num mundo de imperceptível mudança durante 2000 anos - num mundo novo e de vertiginosa evolução técnica e científica, num mundo em que os suportes religiosos desses valores foram postos em causa, limitando-se a afirmá-los de forma dogmática, esvazia-se de função, de finalidade e de sentido.
Não é ficção científica, não é arte, não é literatura.
Um quase objecto, um nada incerto, capitalização do abstracto como aspiração de sentido.

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Três Lágrimas Paralelas

Artur Portela

Editorial Caminho

Colecção Caminho Ficção Científica, nº 59

1987

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